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DESENVOLVIMENTO DA ARQUEOLOGIA HISTÓRICA

PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO

A Arqueologia Histórica, como a Arqueologia da cultura europeia transplantada para as Américas, nasceu, muito antes do seu nome, nos Estados Unidos e Canadá por volta de 1850. Primeiramente preocupada com a busca de pessoas e lugares famosos para a História nacional e oficial, esta Arqueologia vai ser praticada quase exclusivamente por arquitetos e historiadores.
Os primeiros trabalhos em sítios históricos no Brasil remontam às décadas de 1930 a 1950, quando foram feitas investigações sem caráter sistemático ou corpus teórico e metodológico definido. Como primeiros exemplos dessas investigações temos, na década de 1930, os trabalhos de Hermann Kruse nas Casas Fortes na Bahia, e de Loureiro Fernandes nos túmulos de quilombolas no Paraná. Em 1940, Virginia Watson realizou investigações nas ruínas de uma vila espanhola no Paraná chamada Ciudad Real del Guairá. Já em 1950, Loureiro Fernandes estudou o Colégio dos Jesuítas no Paraná, como as Missões de São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Borja foram pesquisadas no Rio Grande do Sul pelo padre Luis G. Jaeger em 1959. Essas pesquisas vão ser marcadas por interesses particulares e específicos e, sem uma produção acadêmica, isto as limita a um caráter quase amadorístico e ensaísta.
Na década de 1960, com o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) houve o estudo de alguns sítios históricos, porém em sua maioria por pré-historiadores, e sob a perspectiva da Arqueologia de contato ou colonial. Apesar de usar uma abordagem mais antropológica, esses estudos corresponderam mais a uma continuação da pesquisa pré-histórica sobre os povos indígenas na época do contato, do que a uma Arqueologia histórica sobre a formação da sociedade brasileira do presente.
No Rio Grande do Sul, seguindo a orientação do PRONAPA, foram investigadas as missões jesuíticas e é criada a primeira fase cultural referente ao período histórico, a fase Missões. São os trabalhos de procura de povoados cobertos pela vegetação, análise de materiais provenientes de coletas de superfície e sondagens e identificação de técnicas introduzidas pelos europeus. No Nordeste, à mesma época, são feitas pesquisas em fortificações e igrejas de Pernambuco.
No decorrer dos anos 1970, os estudos relacionados com as Missões foram destacados no sul e no nordeste do Brasil. Os estudos feitos nas Missões Jesuíticas-Guarani apontaram para um tema de pesquisa que iria receber atenção significativa dos arqueólogos. São as investigações sobre contatos interétnicos e os fenômenos de aculturação, que seriam aprofundados na década de 80.
Na década de 1970 esses estudos também vão receber a atenção do Estado, importando-se, principalmente, com os monumentos de “pedra e cal” e os arqueólogos históricos vão assumir uma posição subalterna frente aos interesses restauradores ou conservacionistas de arquitetos e historiadores. A Arqueologia histórica desses períodos é voltada para os trabalhos em igrejas no Sul e Sudeste e fortes no Nordeste, preocupando-se só com o espaço edificado e com sua técnica construtiva. Outro elemento presente nessas investigações do período é a manutenção da História oficial ou nacional(ista), sem incluir a complementação ou confrontação, do saber histórico.
No Rio de Janeiro, Ondemar Dias identifica uma cerâmica denominada “cabocla” resultado do contato entre índios e europeus, material que passou a integrar a tradição Neobrasileira referente ao período colonial. Conforme definição proposta por Chmyz, acomodando-se à teoria processualista, à tradição cultural Neobrasileira é identificada pela cerâmica confeccionada por grupos familiares, neobrasileiros ou caboclos, para uso doméstico, com técnicas indígenas e de outras procedências, onde são diagnosticadas as decorações corrugada, escovada, incisa, aplicada, digitada, roletada e também asas, alças, bases planas em pedestal, cachimbos angulares, discos perfurados de cerâmica e pederneira.
A tradição Neobrasileira é um instrumento de análise para dar conta do processo, desencadeado com a chegada dos europeus, do que viria ser a nação brasileira. Porém, na maioria dos trabalhos onde se observa o uso do termo, ele está voltado quase exclusivamente para a descrição de cacos cerâmicos e a identificação das técnicas de confecção. Investe-se no estudo da cerâmica colonial, mas outros materiais presentes nos sítios raramente são mencionados. A visão reducionista desse esquema, marcado pelo determinismo ambiental, pouco se adequa à interpretação de fenômenos pós-contato com europeu.
A riqueza documental sobre este período mostra a complexidade dos fatos sociais. Evidencia a inadequação dos instrumentos de análise, usados pela Arqueologia brasileira, para dar conta do período histórico. A tradição Neobrasileira, um dos produtos do PRONAPA, teve vida curta. A restrição de seu uso é um indicador de que a comunidade de pesquisadores percebeu não poderem as premissas abraçadas pelo PRONAPA dar conta de uma situação que envolvia os reinos de Portugal, Inglaterra, França e Holanda, diferentes povos indígenas e nações africanas. As nações europeias e suas colônias, em pleno mercantilismo e com sofisticado controle de exploração do ambiente, dificilmente poderiam ser estudadas à luz da versão da Ecologia Cultural introduzida no Brasil por Betty Meggers e Clifford Evans (GASPAR, 2003:269-301).
Por volta de 1960, a Arqueologia histórica vai sofrer uma das suas primeiras transformações com as revoluções epistemológicas que tomam conta de todas as ciências sociais e da Arqueologia em particular. A luta pelos direitos civis e das minorias atinge a Arqueologia histórica, mudando seu foco para o passado dos “Povos sem História”, dos escravos africanos, dos trabalhadores imigrantes ou das mulheres e crianças. Minorias até então postas à margem ou esquecidas tomam o palco das pesquisas, agora também conduzidas por profissionais formados em outras áreas, como a Antropologia (COSTA, 2013:30-32).
Todavia, na década de 1980, outras mudanças vão ocorrer na Arqueologia histórica, nos seus objetos de pesquisa quando o foco volta‑se para o entendimento do mundo moderno e do nascimento do capitalismo. Tal tendência vem à luz em trabalhos de James Deetz e tem como expoentes Charles Orser e Matthew Johnson.
São incorporadas novas temáticas e renovados os preceitos teóricos e metodológicos. A emergência do capitalismo, como o estudo das minorias, subalternos e excluídos toma a cena. Espaços antes não investigados, como senzalas e quilombos, ou espaços de conflito, começam a ser foco das atenções. Tem-se buscado mostrar não ser ela uma simples auxiliar da documentação escrita e da ciência da História, pois a cultura material pode complementar as informações textuais e fornecer informações de outra forma não disponíveis e até mesmo confrontar-se às fontes escritas. Os arqueólogos históricos têm voltado sua atenção nos mecanismos de dominação e resistência e, em particular, nas características materiais do capitalismo.
O pós-processualistas mostram a utilidade das analogias entre a Arqueologia histórica e a pré-histórica. No estudo de questões adaptativas e estilísticas (TRIGGER; 2004:342). A preocupação pelo passado recente em Arqueologia, porém, não é exclusiva do advento de uma episteme pós-moderna.
Os mais interesantes e frutíferos casos estudados pelos pós-procesualistas sairam da Arqueologia histórica, em que há muita documentação e muita informação etnohistórica utilizável para levantar-se questões sobre as mentalidades (FERNÁNDEZ; 2010: 22).
A Arqueologia do mundo moderno ou do capitalismo vai ter como interesse de estudo a formação do nosso cotidiano contemporâneo e vai incitar também um atitude mais crítica do arqueólogo mais para com o presente do que só com o passado.
A Arqueologia histórica amplia seus horizontes, apontando sobre o urbano e investigando, além do tempo, o comportamento. A década de 1990 vai trazer outras mudanças para a Arqueologia histórica brasileira, como sua consolidação na academia com dissertações e teses defendidas sobre o tema, e a situação da Arqueologia de contato e suas diversas pesquisas em relatórios técnicos. Teoricamente, a Arqueologia histórica também se solidifica, com trabalhos seguindo linhas processualistas e pós-processualistas sobre ideologia e simbolismo e, metodologicamente, incluindo na análise, além da cerâmica, outras categorias materiais, como a louça, o vidro e o metal.
Quando se adotam suas teorias e métodos, a Arqueologia Histórica é, no continente americano, uma fecunda via de estudo da cultura material do período moderno, pois suas pesquisas referem-se a materiais manufaturados. A análise central do estudo entoa a relação entre a Arqueologia e a História, pois trata-se da materialidade e do cotidiano, gerando um conflito entre saberes, pois o cotidiano só será compreendido se houver a relação dos sistemas que contribuam para explicar o funcionamento da civilização material e de seu contexto de estabelecimento, o qual é indissociável do estudo do capitalismo.
Desde as primeiras décadas do século XXI, a Arqueologia histórica estuda, no Brasil, temas tão diversos quanto as próprias Arqueologias criadas. Há hoje desde uma Arqueologia da arquitetura, Arqueologia colonial e pós, Arqueologia da escravidão e da diáspora, Arqueologia do capitalismo, Arqueologia do conflito, Arqueologia industrial, Arqueologia urbana, até uma Arqueologia ambiental histórica, entre muitas outras (COSTA; 2013:30-32).
A multiplicação de correntes interpretativas em Arqueologia, no entanto, não parece ter abalado a bipartição entre Arqueologia Histórica e Pré-histórica. A consideração de textos, ou de objetos e monumentos portadores de texto, segue sendo apenas o sintoma da disparidade entre os estudos arqueológicos de sociedades com escrita e os demais estudos arqueológicos. Publicações acadêmicas apresentam estas disparidades de modos, diferentes e divergentes.

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