O ARTEFATO
ARQUEOLÓGICO: QUESTÕES DE CONTATOS E IDENTIDADES
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
O artefato
arqueológico tem uma dupla natureza, ele é o testemunho de uma ação passada,
sua produção e uso; e é também portador de uma atividade futura, seu estudo. É
o documento da História e é a ilustração da teoria desenvolvida pelos
arqueólogos. Assim, o artefato deve ser considerado sob dois aspectos:
primeiro, pelo seu significado para a população que o produziu e, segundo, pelo
seu significado atual, museológico e científico. O objeto arqueológico foi um
objeto cultural e tecnológico no passado, mas também é um objeto cultural e
patrimonial no presente. O objeto arqueológico é também um mediador na tomada
de consciência pública sobre o patrimônio na demonstração, na restituição do
conhecimento adquirido e nos questionamentos.
Já a coleção
é uma construção unicamente do presente. Ela é criada através do olhar
classificatório da Arqueologia de hoje sobre os materiais do passado. As
coleções, e particularmente aquelas sem documentação, não têm significado
cultural ou valor, a não ser quando as pessoas contemporâneas (arqueólogos,
historiadores ou populações descendentes) os dão. É impossível separar as
coleções e os artefatos escavados no passado do pensamento do presente (NIMMO;
2016:77).
Para Trigger (TRIGGER;
2004:173; 338) A cultura material não é só o reflexo da adaptação ecológica ou
sociopolítica. Grupos podem usar seus artefatos para afirmar sua etnicidade,
disfarçar ou explicitar relações sociais, grupos de status podem usar os
artefatos para reforçar sua posição e legitimar sua autoridade. Relações de
parentescos podem ser marcadas por decorações cerâmicas. A cultura material é
usada com um elemento ativo na interação social, ao contrário do afirmado pela
Arqueologia processualista. Por exemplo, os japoneses no início do século XX se
concentravam em artefatos de preferência artísticos. Sua preocupação era
promover a unidade nacional através da ênfase na veneração ao imperador.
O objeto
histórico é visto não só como um documento material, mas como uma relíquia, se
distinguindo por um sentido prévio e imutável que o impregna, derivado, não de
seus atributos, mas de contaminação externa com alguma verdade transcendental,
por exemplo, a “vinculação a fatos memoráveis da História do Brasil”, na
expressão do Decreto-Lei 35, de 1937, que criou o SPHAN - Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. São objetos singulares e auráticos, na
expressão benjaminiana, ou não-fungíveis. Não poderiam ser substituídos por
cópias ou por objetos de atributos equivalentes. São excluídos de circulação,
pois têm seu valor de uso drenado e trazem para qualquer uso prático eventual a
pecha do sacrilégio. Uma bengala que pertenceu ao imperador não pode ser usada
a não ser como objeto de admiração, por exemplo.
Tais objetos
são envolvidos pelo fetichismo, que consiste no deslocamento de sentidos das
relações sociais, onde eles são gerados, para os artefatos, criando-se a ilusão
de sua autonomia e naturalidade. O artefato deve ser compreendido além das
características formais, enquanto resultado das ações sociais de um grupo e
isto nos remete à noção de intencionalidade.
Malinowski
percebeu a semelhança entre os objetos do circuito do kula e as joias da coroa britânica, expostas no castelo de
Edimburgo. O kula é um ritual de
troca de objetos, entre os nativos das ilhas Trobriand, marcado por regras
numerosas e precisas e, além disso, respeitadas, pela integração social que
propiciam. Os objetos do kula não são
importantes por si mesmo, mas pelas mãos por que passaram. Dizer “esse objeto
que eu tenho, pertenceu ao meu bisavô” traz a ele um valor que não é de troca e
nem de uso, mas de portador de uma identidade.
Como as joias
da coroa, os objetos do kula não
valem pelo uso prático, pois “são possuídos pela posse em si”. Tal posse
transfere glória e fama, como sabem os colecionadores. Podem ser feios e
inúteis e, conforme os padrões correntes, ter pouco valor intrínseco, porém só
o fato de terem figurado em acontecimentos históricos e passado pelas mãos de
personagens antigos os constitui em veículo de associação sentimental e passam
a ser considerados preciosidades. São “semióforos”, no dizer de Pomian, ou
seja, capazes de portar sentido, estabelecendo uma mediação de ordem
existencial entre o visível e o invisível.
O conceito de
relíquia, no campo religioso, condiz com os anteriores, ressaltando o contato
com um transcendente, para o objeto prolongar esse sagrado entre nós. Todos
funcionam como fetiches, significantes cujo significado lhes é imanente,
dispensando demonstração: as relíquias do Santo Lenho impunham credibilidade,
não pela autenticidade de suas origens, mas pelo poder manifestado.
Relíquias,
semióforos, objetos históricos: seus compromissos são essencialmente com o
presente, pois no presente eles são produzidos ou reproduzidos como categoria
de objeto e aos imperativos do presente eles respondem. Quanto à identidade, a
psicologia social já assinalou diversos traços do funcionamento dos artefatos,
seja como suportes de identidade, seja, também, como extensão dessa identidade.
As coisas que as pessoas usam e que as cercam refletem a pessoalidade de seu
proprietário, completam.
A partir da
década de 1970 a legislação americana sobre patrimônio cultural passou a
incluir dispositivos explícitos referentes a tais questões. O contexto permite
também elucidar que a transferência do objeto para o espaço público não é o
mais relevante, mas o controle dos significados que tal transferência implica.
Muitas riquezas em informações arqueológicas. Gostei. Bem vindo!
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