A Arqueologia Contextual
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
A Arqueologia
Contextual, por sua vez, foi a mais importante aplicação em Arqueologia da corrente
estruturalista cujo expoente é o antropólogo francês Lévi-Strauss. Para essa
vertente, a mente humana está regulada, consciente ou inconscientemente, por
uma série de estruturas que se manifestam na vida quotidiana e que ficarão refletidas
em as manifestações materiais. Os objetos arqueológicos se convertem em
símbolos das estruturas do pensamento em significantes para um significado que
se tenta conhecer. Podem-se diferenciar três enfoques derivados desta base: a
Arqueologia estrutural, cujo mais conhecido representante foi Leroi-Gourhan, a
cognitiva e a simbólica. Os três coincidem em considerar a cultura material
como um "texto", um conjunto de símbolos codificados com as leis que
guiaram a vida das gentes que a criou (GONZALO; 2017:19-26).
Para os
arqueólogos estruturalistas da linha de Levi-Strauss, a vida humana era
governada pelas estruturas permanentes do entendimento humano e o estudo
arqueológico devia estar orientado para a descoberta da expressão simbólica
contida nos restos arqueológicos, os quais são a reprodução dessas estruturas.
A Arqueologia estrutural é criticada por ter poucos estudos arqueológicos para
estabelecerem com sucesso o vínculo entre "códigos" culturais,
oposições binárias e situação social ou ecológica no passado (HURARD;
ROUMÉGOUX; CHAOUI-DERIEUX; 2014:134-146). Isto provém, na maior parte das
vezes, de uma falta de compreensão do método estruturalista por parte dos
próprios pesquisadores.
André
Leroi-Gourhan foi um dos primeiros a interpretar de forma estruturalista o
arranjo de pinturas paleolíticas em cavernas. Leroi-Gourhan analisou mais de
dois mil desenhos em sessenta grutas. Ele compartilhou as cavernas em várias
partes criando uma “caverna ideal” composta da “galeria”, a “periferia” e “o
fundo e a entrada da caverna”.
Essa
metodologia de criar um “modelo ideal” vem da noção de “significado” como
imagem mental. Para um brasileiro, uma refeição ideal se compõe de arroz,
feijão, carne de boi e salada. Seria o “prato feito” ideal. Porém, na prática,
pode ser que falte a salada, ou que se acrescentem batatas fritas. Isso não
alterará o modelo cultural do “prato feito ideal”. Uma “caverna ideal”
paleolítica europeia pode não ter as quatro partes indicadas, ou por não ter
espaço suficiente, ou por ter espaço demais, mas no ver de Lehoi-Gohan, sempre
refletirá aquelas partes ideais.
Ele dividiu
as pinturas de animais em espécies, observando serem mais de 60% das pinturas
representações de cavalos, bisontes e gado, enquanto os ursos, rinocerontes e leões
eram mais raros.
O ponto
polêmico do estudo foi ele também dividir os desenhos geométricos em “amplo” -
feminino e “estreito” - masculino a partir de uma analogia com os órgãos
genitais da mulher e do homem, sendo esse o último, representados nestas
cavernas de forma naturalista. Para o grupo feminino, de acordo com
Leroi-Gourhan, também pertencem às representações por ele interpretadas como
feridas, isto é, os ferimentos de homens e animais moribundos, enquanto no
grupo masculino são classificados os símbolos das armas.
Para a
interpretação estruturalista da arte parietal de Leroi-Gourhan, há uma
tentativa mitológica de superar as contradições da vida e da morte que são interdependentes
(para se viver, deve-se matar). De um lado há o princípio masculino, os
predadores, as armas e as feridas, a dor e a morte infligidas e, por outro, o
princípio feminino, os animais e os homens mortos e feridos, a dor e a morte que
sofreram.
A análise da
arte das cavernas feita por Leroi-Gouran anunciou as maiores questões a serem
levantadas pela interpretação arqueológica estrutural. Embora conduzido de
forma consistente e lógica, ilustra o princípio de certo estruturalismo no qual
nada pode ser verificado; em que tudo é possível e nada é certo.
O arqueólogo
americano Dean Arnold tentou estabelecer uma relação estrutural entre a
decoração da cerâmica e a disposição social do espaço na percepção local da
paisagem na vila Quinua, Peru. As áreas horizontais de decoração cerâmica
correspondem às zonas geográficas horizontais ao redor da aldeia
(planície-montanha), as quais devem ser cultivadas para a comunidade ser
próspera e autônoma. A divisão da paisagem e das áreas naturais pelo sistema de
irrigação encontrou - de acordo com Arnold - sua expressão na divisão vertical
e simetria bilateral da decoração da cerâmica. Arnold foi criticado, como
Leroi-Gourhan, por oferecer poucos fatos contextuais que ligariam decorações e
paisagens cerâmicas(HURARD; ROUMÉGOUX; CHAOUI-DERIEUX; 2014:134-146).
O
Estruturalismo divide os estudos em duas dimensões: a sincrônica e a
diacrônica. Os estudos sincrônicos são aqueles que observam o estado atual de
um determinado objeto, língua, sociedade, etc. Os estudos diacrônicos são os
estudos “históricos”, ou seja, como certo elemento evoluiu. O Estruturalismo, desde
sua origem na Linguística Geral de Saussure, privilegia os estudos sincrônicos
e deixa de lado os diacrônicos.
Leroi-Gourhan,
como estruturalista, negligencia o estudo diacrônico da arte parietal, e ignora
que esta ação se desenrolou ao longo de milhares de anos, de modo que o
significado desta arte, mesmo se se considerarem as estruturas universais e as
imagens do entendimento humano - mudou ao longo dos milênios. Por exemplo, um
bisão pode ter sido pintado cem anos antes de um cavalo que hoje está na mesma
parede. A sobreposição de duas figuras pode significar ou não algo para o
pintor.
A negligência
da diacronia por parte do estruturalismo é uma das razões para a coabitação mal
sucedida desta abordagem com a Arqueologia. A Arqueologia estrutural
concentra-se em conceitos ideológicos e estruturas permanentes e não anexa
abordagem diacrónica à cronologia, processos e dinâmicas culturais, razão pela
qual a abordagem estrutural, frequentemente tem sido criticada em Arqueologia,
isto é, por definição diacrônica (PALAVESTRA; 2009:137-148).
A partir dos
elementos de cronologia que evidenciam uma diferença entre as figuras
elaboradas em momentos diferentes, uma cronoestilística tem possibilidade de
ser esboçada. Conjuntos rupestres pertencentes a um mesmo período e apresentam
uma mesma temática são agrupados em uma tradição, quer recebem nome especifico.
Dentro da mesma tradição, conjuntos que apresentam características peculiares
na temática e nas técnicas de elaboração são chamados fácies quando correspondem a uma região específica ou estilos quando ocorrem por um período
restrito num mesmo lugar (PROUS; BAETA; 2003:46).
Temos a visão
do aspecto atual dos conjuntos rupestres, do ainda preservado e visível, se
apresentando como um único conjunto. Porém, é necessário observar pistas da
sucessão dos momentos picturais e as suas relações: cada pintor ao acrescentar
as suas figuras em uma parede já pintada, interpretava as dos seus interesses.
Em muitas ocasiões, fica nítida a inserção destes elementos de forma interativa
com os anteriores. Também já foram identificados indícios de que os pintores
buscam apagar figuras anteriores. Neste caso, os pintores não estavam interessados
em dividir aquela parede com outros grupos. Houve também pintores que
desenhavam as suas figuras em painéis periféricos para não interferir nos
conjuntos mais antigos. A escolha de um local para se pintar não era ao acaso
(PROUS; BAETA; 2003:55-6).
O
processualismo não avançou muito no sentido de se desvincular do fetichismo do
objeto. Os processualistas apesar de não fixarem no artefato em si, o
consideravam como produto de um processo no qual o ser humano era um dos elos.
O homem era visto praticamente como uma máquina de produzir objetos, refletindo
a ideologia capitalista da linha de montagem.
Em 1976
Michel Shiffer elaborou um enfoque análogo chamado Arqueologia comportamental,
segundo a qual, os dados arqueólogos consistem de materialidade, encontrados em
relações estáticas, produzidos por sistemas culturais e sujeitos de processos
não naturais.
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