A CULTURA
MATERIAL E SUA INTERPRETAÇÃO
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
A palavra
“cultura”, em termos de Arqueologia, é aplicada a conjuntos de restos materiais
os quais incluem artefatos e estruturas. Uma cultura arqueológica é um conjunto
de vestígios regularmente associados. Porém, não indica que aqueles que
deixaram estes vestígios necessariamente participavam da mesma unidade
política, falavam a mesma língua ou tinham a mesma religião, mas apenas que
compartilhavam a mesma “cultura material”, isto é, usavam os mesmos objetos
(PROUS; 2006:157). Os povos de uma região não viviam isolados e trocavam
artefatos, seja pelo comércio, seja como despojos de guerra. Hoje podemos
encontrar uma garrafa de refrigerante em qualquer parte do mundo. Ela estará
sendo usada no interior da China, num oásis do Saara, numa tribo amazônica ou
numa grande cidade. Isso não significa que todos esses grupos tenham as mesmas
crenças, valores ou ritos, mas apenas que o objeto “garrafa de refrigerante”
circula por todos esses lugares. Isso nos diz mais sobre o comércio que sobre
os costumes desses povos. Isso não é uma novidade dos tempos modernos, é
possível, por exemplo, encontrar restos de porcelana chinesa nos conventos
barrocos brasileiros e na Europa a partir do século XVI; conchas do litoral
africano são encontradas no interior do continente; ânforas de vinho gregas
foram encontradas na Escandinávia. “Cultura arqueológica” e “grupo étnico” não
são sinônimos.
A expressão
“cultura material”, criada por Vladslav Ravdonikas em 1929 ao criticar o
formalismo e o método tipológico (TRIGGER; 2004:210-16), forma a base para o
tratamento dos dados arqueológicos relacionados com aspectos comportamentais e
culturais dos sítios. Para a Arqueologia contextual, a cultura material não é
apenas um reflexo da adaptação ecológica ou sociopolítica, mas constitui um
elemento ativo nas relações entre grupos que podem usar a cultura material para
realçar sua identidade (TRIGGER; 2004:338).
A
reconstituição das culturas arqueológicas não é completa, pois as evidências
conservadas são somente partes da cultura material do grupo quando vivo. A
cultura imaterial, a relação com o intangível, encontra-se perdida nas
sociedades ágrafas ou que não deixaram descendentes (CARVALHO; 2003:19-20). É
quase impossível compreender o significado simbólico e estético de traços
culturais sem uma explicação verbal, quer escrita, quer oral, daí a importância
da narrativa e dos discursos sobre o objeto para se inferir o significado do
objeto (TRIGGER; 2004:342).
A tendência
de explicar todas as características dos objetos a partir de influências
externas é não entender a subjetividade humana. A função simbólica é
constituinte do homem, dela emergindo a cultura. O social, integrado em sistema
pela função simbólica, dá significado ao mundo tornando possível a comunicação.
A linguagem visual fornece uma compreensão sobre os traços estilísticos e
formais dos registros. Através das construções gráficas tem-se acesso a
ideologias e conceitos imateriais, tais como sistemas de crenças, marcas
sociais, arranjo territorial etc.
Apesar disso,
por ser a mais facilmente inteligível, e na maioria das vezes, a única
acessível, a dimensão formal e de sua variabilidade no registro arqueológico
foi alvo da maior diversidade de olhares. Analisada por um amplo espectro de
tendências, com diferentes graus de complexidade, a dimensão formal ganhou
corpo a ponto de seu estudo chegar a se confundir com o da própria Arqueologia,
com a qual costuma ser identificada (LIMA; 2011:11-23). Para os formalistas
positivistas, as formas e os tipos dos produtos terminaram por serem
considerados mais reais e vivos do que a sociedade que os criou, pois, se os
dados adequados estiverem disponíveis e seja analisado o emprego do método
científico apropriado, a validade das conclusões independe das crenças do
pesquisador.
O estudo da
cultura material de populações indígenas contemporâneas constitui-se um objeto importante
de pesquisa. Para os arqueólogos, a possibilidade de observar e compreender a
dinâmica dos processos de produção e uso dos itens materiais contribui para a
interpretação da área de pesquisa e partir do interesse arqueológico
(RODRIGUES; 2007:18). Entretanto é uma falácia presumir que continuidades na tecnologia
indicam continuidade no significado, pois o significado atribuído à um objeto
ou a uma representação muda com o tempo. Basta pensar na nossa própria
sociedade. Um espartilho no século XIX era uma roupa íntima cujo uso era
ocultado. No século XX passou a ser um objeto de fetiche e, depois, a uma peça
de roupa que pode ser usada sobre as outras como ornamento. Assim, uma pintura
que numa tribo atual é apenas um ornamento, pode ter tido um significado ritual
em outras gerações.
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