A PAISAGEM E
A ARQUEOLOGIA
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
A paisagem é
uma construção histórico-cultural identificada com as formas específicas
(sincrônicas e diacrônicas) de contemplar, compreender, dispor e usar os
cenários de ação ativados pelas relações sociais. Ela é o somatório de
histórias misturadas num determinado espaço. Entender essas histórias,
codificadas na materialidade da paisagem, tem sido um desafio para o
arqueólogo.
Embora a
dimensão espacial de uma época ou de um horizonte dentro de uma região seja
importante para a investigação arqueológica, em si mesma não constituem um
enfoque da “paisagem”. A sua abordagem pressupõe serem as paisagens dinâmicas e
terem histórias complexas. Os povos moldam e interagem com a cultura material
dos entornos construídos através do significado e isto parece manter-se no
tempo de uma forma culturalmente cruzada e em toda classe de entornos,
contextos e situações. Conquanto gerações de pessoas possam habitar e modificar
múltiplos lugares de forma diferente dentro da paisagem de sua comunidade, os
restos materiais residuais compartilham um padrão comum subjacente, enquanto as
tradições culturais mais importantes se mantém intactas.
O estudo da paisagem
destaca o ambiente cultural, “antropogênico” ou construído, a modificação
humana e a transformação da paisagem natural sob a forma de caminhos, estradas,
calçadas, monumentos, paredes, jardins e campos e seus limites, visões
astronômicas e calendáricas, santuários e lugares sagrados, e gerenciamento de
água. A preocupação é compreender a maneira e as razões de os humanos modificarem
e criarem a paisagem cultural para fins econômicos, políticos, sociais e
religiosos.
A paisagem é
o espaço visível onde o pesquisador concentra seus estudos na busca de entender
as sucessivas ocupações humanas em um mesmo lugar, e como ocorreu essa
transformação. Os estudos da paisagem em Arqueologia, como qualquer outro neste
campo do conhecimento, é multidisciplinar. Diferentes métodos e conceitos são
envolvidos para a observação, apreensão e explanação de um fenômeno social que
transmite símbolos interpretáveis em meio a uma teia de significados dentro de
contextos específicos. A Arqueologia da Paisagem envolve o uso de ferramentas
multidisciplinares a fim de compreender os modos pelas quais os grupos humanos
ocuparam e modificaram a paisagem em função de suas práticas
econômico-produtivas, sociais e culturais, de igual forma entendendo como as
pessoas foram influenciadas, motivadas e restringidas por ela, em um processo
de compreensão das sociedades humanas em seus ambientes, que ultrapassam o
possibilismo ou o determinismo ambiental, apresentando uma visão de estudos que
associa natureza e cultura em seu conjunto.
O estudo da
paisagem em Arqueologia envolve questões complexas sobre os modos pelos quais
grupos humanos moldaram seus espaços, situações abarcadoras de uma variedade de
processos relacionados à disposição desse espaço e a sua modificação em função
de uma diversidade de propósitos que incluem a subsistência e questões de ordem
econômica e social.
Os humanos
percorrem o ambiente enquanto percepções e conceitos são estabelecidos por meio
dos processos cognitivos e culturais. A paisagem abrange os conceitos de “estabelecimento”
de Maus; “lugar” de Binford; e “lugares persistentes” de Schlanger, porém a
paisagem extrapola as condições adaptativas e de subsistência. Esse manejo
estaria relacionado aos aspectos de ordem cognitiva, ao apego sentimental ao
lugar, às escolhas e estratégias, políticas, ideológicas ou ritualísticas;
enfim, ele faz parte de uma rede de significação. Sendo a cultura um sistema de
significação, o meio físico onde o homem se instala faz parte desse sistema e,
como outras estruturas, também ele faz parte do “fato social total” de Mauss
(FAGUNDES, PIUZANA; 2010:205-220).
Mesmo a
Amazônia apresenta um alto nível de trabalho humano, exemplo disso são as extensões
de solos antrópicos conhecidos como “terra preta de índio” ou “terra preta arqueológica”
(TPA), além de montículos de terra, canais e desenhos escavados no solo
conhecidos como geoglifos. Mas a ação antrópica mais espetacular foi o manejo
de florestas inteiras, de diferentes ecossistemas, assim, hoje, mais de 60% das
florestas conhecidas são de origem humana. Mas esse manejo teve um início e
este coincidiu com o Holoceno Inicial através de populações nômades. Em
Carajás, região de serras situada no sudeste do estado do Pará, Brasil,
diversas evidências estão sendo reunidas do início do manejo e seleção cultural
de espécies vegetais feitas por populações nômades que ocuparam a região desde
11000 até 3000 anos atrás (MAGALHÃES, MAIA: 2017).
Paisagem não
é sinônimo de ambiente, este é natural, com ou sem interferência humana, sem
possibilidade de controle, apenas de “destruição”, e sem a necessidade de
atribuição de interpretações, como lendas, tabus, territórios ou mapas. O
ambiente é externo ao homem e encarado, muitas vezes, como em conflito com ele.
Ora o ambiente nos “agride” com enchentes, feras, variações climáticas, ora é
agredida por nós por meio de queimadas, poluição ou urbanização. As paisagens,
ao contrário, são sintéticas: os sistemas culturais estruturam e dão forma às
interações entre as gentes e seu meio ambiente. A paisagem significa mundo exterior mediado pela experiência
subjetiva do homem. As paisagens são um mundo de produtos culturais. As
comunidades transformam os espaços físicos em lugares cheios de conteúdos
mediante suas ações diárias, suas crenças e seus sistemas de valores. A
experiência, a história, os valores, a circunstância e as escolhas individuais,
todas elas têm seu papel em uma paisagem. As paisagens arqueológicas representam
um modo no qual o povo se expressou, a eles mesmos e a seu mundo, mediante suas
relações com a natureza, e mediante a qual sublinhou e formou seu próprio papel
social, com respeito à natureza externa.
Uma paisagem também
não é igual a um “entorno edificado”, que remete a uma construção física
planejada. As edificações estão na paisagem e podem mesmo ser seu principal
elemento, porém não se limitam a isso. O céu de Brasília é um “complemento” à
arquitetura modernista da cidade. Em outro lugar do mundo, onde o céu fosse
permanentemente carregado, ou onde a chuva fosse uma constante, o efeito e o
significado das construções seria outro. Assim as contruções do Rio estão
cercadas de mar e montanha, com seus limites de “asfalto” e favela, fazendo com
que as construções humanas tenham de ser interpretadas dentro da paisagem da
cidade. Igualmente em São Paulo, a imensa área cinzenta de construção caótica
combina-se com o céu cinzento e a poluição para gerar uma paisagem.
A paisagem é
o cenário para toda a vida de uma comunidade, não necessariamente é algo
agradáveln ou bonito. As paisagens são construtos das populações humanas, mas
também o meio no qual estas mesmas populações sobrevivem e se sustentam. O
domínio paisagístico implica a existência de um padrão em um contexto interior
ao lugar e entre os lugares. As pautas que se podem observar de restos
materiais e de espaços vazios, vêm das interações entre o domínio do
culturalmente dado e as distribuições de recursos e espaço vital não
culturalmente interpretados. Quando as paisagens conformam a percepção e a
ação, a economia, a sociedade e o pensamento, não apenas estão interconectadas,
são interdependentes.
As paisagens
são construções dinâmicas nas quais cada comunidade e cada geração impõe seu
próprio mapa cognitivo de um mundo antropogênico e interconectado de
morfologia, planificação e significado coerente. O fato das paisagens abarcarem
princípios fundamentais para a forma e estrutura da vida dos povos nos é útil
como construtos materiais transmissores de informação e podem ser interpretados
como documentos. A paisagem, como sistema de manejo de símbolos significantes
das ações humanas e dos subprodutos materiais gerados, ajuda a definir relações
habituais baseadas em uma informação diferenciada. Os processos de mudança de
conduta através do tempo e o espaço têm como resultado uma paisagem em transformação
constante (ANSCHUETZ et alii; 2001:152-197).
Se o ser humano
é capaz de pensar e repensar o meio, ele não se mantem passivo às condições
impostas pelo ambiente. A cultura permite à sociedade se constituir por meio
dos sistemas de significação criados, recriados e transmitidos por um grupo. O
mundo em sua materialidade é pensado e compreendido pelas sociedades ditas
primitivas, diferente da lógica tecnicista do mundo ocidental, mas não menos
objetiva.
A moldagem da
paisagem foi feita por pessoas como agricultores, engenheiros de estradas,
militares ao construir fortificações e também por xamãs que escolhiam
determinadas rochas para registrar suas visões, por adolescentes que realizavam
seus ritos de passagem e por pessoas que elegiam locais para enterrar seus
mortos. A paisagem arqueológica assume o caráter de fenômeno social dentro de
contextos específicos e transmite símbolos interpretáveis em meio à teia de
significados. É insustentável a ideia estruturalista de natureza como par dicotômico
de cultura, devendo ser ambos concebidos como parte de um mesmo sistema de
relações a divisão clássica da Antropologia em sistemas operativos e cognitivos
ficaria pequena, ambos devem ser tratados simetricamente.
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