A PAISAGEM
COMO PATRIMÔNIO
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
Locais
históricos nacionais designados para fins arqueológicos para comemorar a história
dos povos aborígenes podem ter valores de paisagem cultural, e as nações
envolvidas podem optar por identificá-los como paisagens ou elementos de
paisagens culturais dada a sua herança. Este é, por exemplo, o caso da Serra da
Barriga no Brasil, escolhida como sendo o lugar para comemorar a existência de
Palmares. Não há nela nenhuma marca arqueológica concreta de que tenha sido o
centro do quilombo, nunca se achou nenhum marco arquitetônico relevante, como
seriam muralhas de terra que dizem ter havido no quilombo, ou mesmo áreas de
descarte de lixo relevantes que demonstrassem uma grande população. Ninguém
encontrou ainda o chamado Mocambo do Macaco, onde teria sido travada a última
batalha da resistência negra, sequer balas de canhão, que teriam sido disparadas
se achou. O valor do parque da Serra da Barriga não está considerado como uma
jazida arqueológica, mas como uma paisagem que, certamente, os quilombolas
conheceram e reconheceriam. No futuro, quando o sítio exato dos acontecimentos
for porventura encontrado, pode ser que o simbolismo que hoje aí se concentra
seja transferido de lugar.
A gestão do
patrimônio e a prática arqueológica têm um contributo para as sociedades, mas
as abordagens de cima para baixo podem não atender às demandas das comunidades
locais. O sítio da Batalha dos Guararapes em Pernambuco, por exemplo, é bem
conhecido e demarcado, porém a população local não sente que ali exista algo
que a represente.
A maioria dos
modos de gestão de recursos culturais assume o primado da conservação e têm por
objetivo sustentar recursos para as gerações futuras. O problema é justificar a
atenção para o cuidado da propriedade sem primeiro considerar as circunstâncias
e as necessidades das pessoas da geração atual: os deslocados, desempregados e destituídos
da geração presente. Uma igreja barroca cercada de cuidados em meio a uma
favela miserável perde o seu sentido como patrimônio, ao contrário, é passa a
ser vista como algo tirado da comunidade e apropriado pelos “ricos”.
As versões paternalistas
do gerenciamento do patrimônio, promovidas pela UNESCO e outras agências
internacionais e inerentes à maioria dos programas de ajuda externa, podem
deixar de atender às carências locais das sociedades de conflito e
pós-conflito. A dimensão política deste trabalho é inescapável e o motivo de
uma discussão sobre o que poderia constituir um comportamento adequado para os
arqueólogos envolvidos na gestão de recursos culturais em período de guerra e,
em seguida, uma discussão provocada, em particular, pela oposição ao conflito,
como no caso do Iraque.
A paisagem
cultural está relacionada com a manipulação, defesa ou destruição de laços
percebidos entre pessoas e lugares. Uma abordagem partidária do passado dá
origem a uma herança dissonante, onde o comércio seletivo, a preservação e a
apresentação de monumentos culturais privilegiam versões particulares do
passado e podem anular e desinformar narrativas e identidades alternativas.
Esta manipulação da paisagem histórica e dos seus restos arqueológicos é levada
a extremos na destruição deliberada de sítios culturais. Alguns dos exemplos
mais bem documentados incluem a demolição de sítios culturais que acompanharam
a desintegração da Iugoslávia, a destruição do Babri Masjid em Ayodha em
disputa sobre o valor simbólico do sítio e a destruição controlada dos Budas de
Bamiyan pelo governo afegão em 2001. Esses atos de profanação e violação
destinavam-se a negar versões indesejadas e heterogêneas do passado e do
presente, e ferir quem os consideravam valiosos. Esta natureza contestada do
patrimônio cultural aparece nas abordagens baseadas no valor da gestão do
patrimônio arqueológico promovidas por entidades internacionais como o ICOMOS e
a UNESCO, onde as “significações culturais” são definidas pela avaliação dos
valores de uma série de partes interessadas. Mas os valores não são
intrínsecos, estáticos ou inerentes: as críticas pós-modernas nos ensinaram estarem
os valores ligados às motivações subjetivas, contextuais e dinâmicas (PERRING,
VAN DER LINDE; 2009:199).
Há também
paisagens relacionadas à História dos povos aborígines cujo valor é
reconhecido, mas não associados a etnias específicas. Por exemplo, no
Grasslands National Park, Saskatchewan, as análises arqueológicas de relíquias
culturais refletem sua ocupação por mais de 10.000 anos, mas nenhuma nação
reivindica associação atual direta com o parque
(DUVAL, 2007). No Brasil, este é o caso da Serra da Capivara. A
paisagem, em tais circunstâncias, foram moldadas por povos do passado, mas têm
um significado patrimonial para os povos do presente.
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