A QUESTÃO DA TEORIA
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
Muitos
arqueólogos, mesmo acadêmicos, não se dão conta da importância da teoria para a
Arqueologia. A maioria pensa que fazendo uma escavação metódica e controlando a
estatigrafia com rigor chegará a resultados satisfatórios causados pelo salto
qualitativo, quando a quantidade dos dados se torna, por si mesma qualidade.
Esse ponto de vista tem raízes históricas, como veremos, e está totalmente
equivocado.
Dissemos
acima que há pessoas que acreditam que a Arqueologia não pode ser considerada
uma ciência autônoma por não possuir uma teoria própria. Segundo estes, o
arqueólogo tem, obrigatoriamente, de basear suas interpretações na teoria geral
de outras ciências. Assim, uma das questões que encontrou a Arqueologia como
ciência foi encontrar e explicitar uma teoria própria que lhe faculte estudar
as sociedades do passado. Diz Trigger (2004:17) que a Arqueologia jamais passou
por um período em que a coleta de dados fosse feita por se fazer, na esperança
de que no futuro, se conheceria o bastante para propor questões sérias. Isto
significa que desde o início houve teorias implícitas, mesmo que os próprios
arqueólogos não se dessem conta dela. A Arqueologia começou como uma atividade
empírica, mas desde que os dados arqueólogos viraram um objeto de estudo, os
pesquisadores os examinam na esperança de lançar luz sobre questões
filosóficas, históricas e científicas.
Segundo seu
objeto, a Arqueologia pode ser conceituada como o estudo do passado do homem
através dos restos materiais de suas ações. A teoria arqueológica toma então
como pressuposto implícito que houve um passado do homem e que os restos do
passado são encontráveis. Isso não é óbvio. Durante boa parte da História
ocidental, acreditava-se que a narrativa bíblica era factual. Ela dizia que o
homem teria surgido há cerca de cinco mil anos e sempre fora mais ou menos
igual. O livro do Gênesis diz que se conheciam o ferro e o bronze pelo menos
desde a terceira geração humana e que desde Caim já havia cidades. Assim, os
objetos de pedra que surgiam quando a terra era arada eram interpretadas como
meras curiosidades naturais, pedras que por acaso se pareciam com machados ou
pontas de pedra. Ainda hoje, os campônios acham que os machados de pedra polida
se formam quando um raio cai e bate em um seixo, ou que os potes que se acham
enterrados no chão são meramente terra endurecida em um formato curioso.
Houve e há em
Arqueologia diversas escolas colaterais num desenvolvimento complexo, como em
todas as ciências humanas. Uma discussão vinda do século XIX é se a Arqueologia
é uma forma de História contada como estudo material ou se é a Antropologia das
sociedades antigas. Os partidários da Arqueologia como forma de História
material acreditavam que sua função era de completar os documentos, sendo uma
ilustração dos eventos. De outro lado, os partidários da Arqueologia como forma
de Antropologia antiga não acreditavam no seu caráter como ciência social,
porém apenas como uma técnica a mais de coleta de dados. Assim, em ambos os
casos, a Arqueologia seria uma “ciência auxiliar” caberia à “ciência
principal”, quer seja a História, quer seja a Antropologia, interpretar os
dados.
A relação tem
sido mais próxima com a História quando os arqueólogos estudam o que acreditam
ser os vestígios de seus próprios antepassados ou de civilizações sobres as
quais há documentos escritos e mais próxima da Antropologia quando eles estudam
o Paleolítico ou sociedades mais distantes da sua (TRIGGER, 2004:362).
Essa
dicotomia só vai se encerrar em meados do século XX, quando especialistas da
área propõem que a Arqueologia seja algo no meio, entre ambas as perspectivas,
porém com objeto, teoria e métodos próprios, que são os três elementos de que qualquer
ciência deve dispor. A teoria é o mais importante, pois ela informa tanto o
objeto quanto o método. É a teoria que vai determinar o que se procurar e é ela
que vai ditar como se procurar, finalmente é a teoria que produz as
interpretações daquilo que foi estudado.
A maior
controvérsia sobre a interpretação arqueológica centrou-se na avaliação do
papel desempenhado pela explicação no estudo dos dados arqueológicos. No
início, os quadros teóricos não eram explicitamente formulados e a Arqueologia
permaneceu sem explicitação teórica elaborada, apesar de haver formulações
dotadas de consistência interna.
O imperativo
de se abordar o passado a partir da materialidade levou a uma multiplicidade de
enfoques arqueológicos. Por materialidade entendemos objetos e lugares, o
componente físico destes, cujas qualidades se entendem em relação a um contexto
particular em que se inserem, pois é produto de práticas sociopolíticas
concretas, contemplam qualidades performativas e cumprem um papel na reprodução
da ordem social. A relação entre esta, as pessoas e o tempo, se sintetiza em as
possibilidades que apresentam a materialidade como veículo pelo qual o fazer
humano transcende os próprios limites (FOINZALIDA; 2017).
Um exemplo de
como a teoria determina a metodologia está no fato de a maioria dos arqueólogos
que escavam no Brasil pararem suas sondagens quando encontram a formação
geológica que marca a passagem do Pleistoceno para o Holoceno. Segundo a teoria
vigente, o homem não chegou à América do Sul antes do fim do Holoceno, logo,
escavar abaixo da Formação Barreiras seria inútil. Também as quadras de um por
um metro onipresentes na Arqueologia brasileira vêm da ideia de que o objetivo
da nossa Arqueologia deveria ser o estudo das migrações e, para isso, amostras
esparsas seriam suficientes. Para se obter termos de comparação entre as
regiões, as quadras foram padronizadas pelo PRONAPA nos anos 50.
Também a questão
da finalidade e da utilidade da Arqueologia reflete a teoria. Para algumas
escolas, a finalidade da Arqueologia está em ilustrar e esclarecer o
desenvolvimento histórico, confirmando ou refutando as suposições dos
historiadores. Para esta linha de pensamento, a Arqueologia é apenas uma
ciência auxiliar da História. Tanto a teoria positivista quanto a marxista
apontavam este caminho.
Para outras
linhas de pensamento, como o processualismo, a utilidade da Arqueologia é
ajudar a resolver questões de adaptação ambiental. Para esta escola, aprender
com os erros e acertos das sociedades passadas auxiliariam as atuais gerações
em seus problemas técnicos. Este era tanto o pensamento dos primeiros
arqueólogos pré-científicos que buscavam encontrar nas escavações a técnica
clássica que os antigos usavam para a arquitetura e a arte, quanto para os
processualistas que afirmam que o estudo da terra preta de índio na Amazônia
pode ajudar na agricultura dos solos tropicais, ou o estudo das ruínas maias
leva a refletir sobre a exploração imoderada da agricultura.
O
processualismo afirmava, por exemplo, que extrapolações sobre o estresse
ambiental do Arizona pré-histórico podiam ajudar a compreender o comportamento
dos grupos negros e hispânicos que vivem nos guetos das cidades
norte-americanas modernas. Pois em ambos os casos se tratam de populações
pressionadas por problemas como a superpopulação e a escassez (TRIGGER; 2004).
Os solos
antrópicos da Amazônia conhecidos como “terra preta de índio”, “terra preta
arq.” (TPA) ou “terra preta (TP)” têm chamado a atenção de cientistas como uma
solução para a questão da agricultura sustentável em solos pobres e
intemperizados que cobrem extensas áreas dos trópicos. O estudo da TPA pode
contribuir em lições sobre o potencial de fertilidade dos latossolos nos
trópicos (SCHIMIDT; 2007:126).
Porém é
preciso questionar para quem a Arqueologia deve ser útil. Ela pode ser bastante
útil não só para as populações modernas, mas também para as populações
tradicionais. A Arqueologia pós-processualista visa ser útil para indígenas e
quilombolas, que podem usar os dados arqueológicos para reforçar a sua
pretensão à demarcação de uma determinada área. O Estado de Israel usa a
Arqueologia para reinvindicar territórios, assim como o fizeram outras nações
no passado. Empresas que constroem hidroelétricas podem usar a Arqueologia para
“provar” que determinada área só foi ocupada recentemente por uma determinada
população, não sendo uma de suas “áreas tradicionais”.
Também
existem aqueles, como os pós-processualistas, a propor que o estudo das
sociedades pretéritas (e não tão pretéritas) subsidia a compreensão das
questões sociais dos dias de hoje, como relações de autoridade, gênero, família
etc. Isso começa, de certa forma, com os homosexuais alemães do século XIX que
se esforçaram para mostrar que a efebia grega era uma forma “nobre” de amor
entre homens, não só pelos textos antigos, como pelos graffiti e decorações de cerâmicas.
Assim, a
“utilidade” da Arqueologia depende de um fundo teórico, explícito ou não.
Passaremos, então, a discutir sobre algumas teorias arqueológicas específicas.
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