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ANTECEDENTES DA ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM

PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO

A Arqueologia da Paisagem não apareceu de forma isolada e momentânea. Desenvolveu-se colateralmente com trabalhos de outros campos do conhecimento e depende de sustentação em bases de outros campos. Já no séc. XIX os arqueólogos do EUA se tornaram conscientes das manifestações culturais circunscritas geograficamente. Na Europa, no início de 1840, Worsaae afirmou que os achados arqueológicos devem ser estudados em relação com seus contextos paleoambientais iniciando uma prática que dura até hoje. (TRIGGER; 2004:239). O termo paisagem surgiu no âmbito da ciência na Geografia alemã por volta do século XIX. Ela se estabeleceu como uma de suas principais categorias de análise da escola geográfica da Alemanha, apresentando polissemias interpretativas que lhes conferiram sentidos objetivos e subjetivos. (BARBOSA, GONÇALVES; 2014:92-93).
Um dos pré-requisitos para a formação da Arqueologia da Paisagem foi a ideia que todas as atividades humanas necessitam de uma dimensão espacial. Nos princípios do século XX, os arqueólogos britânicos, em conjunto com geógrafos, foram os pioneiros em usar mapas de distribuição ao posicionar com precisão os fenômenos arqueológicos no espaço, estes investigadores começaram a construir explicações sobre a distribuição de jazidas arqueológicas em termos de características geográficas. Os mapas de distribuição, por sua mera existência, implicaram a coordenação de evidencias dispersas e o estabelecimento de uma relação sintética com seu fundo geográfico.
Para a Escola Francesa de Geografia Regional, instaurada por Vidal de la Blache na primeira década do séc. XX, a paisagem era o reflexo de um estilo particular do arranjo espacial, e ainda para esse investigador, a “paisagem” não seria fundamental; se fosse entendido como parte da análise da região; este último, objeto de estudo da geografia. O estudo da paisagem em contexto sociocultural implica considerar todas as suas dimensões históricas. Cada dimensão da paisagem ilustra o modo como os indivíduos definem, moldam e usam o espaço em cada tempo concreto (SÁNCHEZ YUSTOS; 2010:141). Sob esse viés, a paisagem enquanto espaço moldado e construção social amplia a noção de sítio arqueológico que deixa de ser um lugar restrito e passa a compreender todo seu entorno. A paisagem, em tal processo, é compreendida como um dos focos de análise da Arqueologia, ao trazer consigo as marcas das ocupações em longa duração e a possibilidade de leitura de conceitos de continuidade, mudança, simbolismo, tecnologia, mobilidade, obtenção de recursos, sistema de assentamento e suas interconexões.
Na primeira metade do século XX, autores tão díspares quanto Gordon Childe e Kossina já tentavam estudar o contexto espacial de um sítio através da “Arqueologia de povoamento” ou “de assentamento” (settlement archaeology, Siedlungsarchäologie). A ideia central era a necessidade de uma descrição física do cenário onde o homem se movimentava. A própria definição de cultura de Gordon Childe implica a existência de uma entidade no espaço e no tempo. O espaço é um termo constante, apesar das diferentes denominações e ideias relacionadas. Também começou nos projetos de Arqueologia, o uso de princípios e modelos geográficos. A paisagem se torna o depósito de uma luta dessa cultura contra o ambiente e o registo da adaptação humana ao seu ambiente natural. Sob a influência de uma cultura, a paisagem seria um espelho do esforço desse conjunto de pessoas ao marcar um espaço como sendo seu. A cultura seria o motivo inicial, o ambiente “natural” seria o meio e a “paisagem cultural” seria o resultado (SILVA; 2014).
Também, a preocupação com o estudo ecossistema em contexto arqueológico pode ser visto como um antecedente da Arqueologia da Paisagem, apesar das disparidades entre os pontos de vista.
A Teoria Geral de Sistemas, empregada pela primeira vez pelo biólogo Ludwig von Bertalanffy em 1932 com o propósito de tratar do conjunto da interação, desenvolveu-se uma integração e unificação entre as ciências naturais e sociais, por meio da influência de seus componentes. Essa divisão é adaptada das escalas de grandeza de A. Tailleur e J. Triscar e é constituída por níveis hierárquicos, considerando como níveis superiores aqueles constituídos pela zona, domínio e região natural; e como níveis inferiores o ecossistema, a geofácies e geótopo. Tricart entende a paisagem como uma unidade ecodinâmica.
Tal conceito está ligado ao de ecossistema, com relações mútuas entre os componentes do sistema tendo como referência a morfogênese, os processos atuais, tipos de densidade, distribuição, influência antrópica e grau de degradação decorrente. Com a crescente disponibilidade de evidencias documentais do câmbio climático do Quaternário, os investigadores começaram a interpretar as trocas das pautas de distribuição de jazidas em termos de flutuações do meio. A inovação das investigações sobre os padrões de assentamentos arqueológicos regionais, em fins dos anos quarenta e princípios dos cinquenta do século passado, foi um descenso destes primeiros estudos de distribuição. A base destas aproximações foi a premissa de que os padrões de assentamento no solo refletem não o meio, mas são condicionados diretamente pelos imperativos culturais.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a percepção cada vez maior da importância de um enfoque ecológico incentivou o empreendimento de programas norte-americanos de pesquisa arqueológica, envolvendo equipes interdisciplinares. Os padrões de assentamento são um ponto de vista estratégico para a interpretação funcional das culturas arqueológicas. Cemitérios, espaços de habitação, palácios, templos, fortes e redes de irrigação foram usados a fim de reconstruir os padrões políticos e sociais.
A Nova Arqueologia processualista valorizou a ecologia e os padrões de assentamento no estudo do processo cultural (TRIGGER; 2004: 286). Despois do avanço de Gordon Willey no estudo do Valle de Virú, o método prospecção de jazidas arqueológicas se tornou rigoroso na implantação das análises em escalas regionais e sub-regionais. Uma serie de prospecções na América Central, nos anos sessenta e setenta, constituem trabalhos clássicos para o reconhecimento arqueológico regional por seus aportes metodológicos.
O trabalho de Willey no Vale de Virú, no Peru, foi reconhecimento como protótipo de estudo de padrões de assentamentos. Willey examinou 350 km² mediante fotografias aéreas das jazidas e planos feitos a partir dessas fotografias. Depois de documentar 315 jazidas, grosso modo ou 25% da amostra, Willey desenvolveu uma tipologia de assentamentos para distinguir moradias, cemitérios, redutos elevados, pirâmides e complexos habitacionais.
Também se estabeleceram precedentes para a Arqueologia da paisagem os estudos sobre o norte da China.
O interesse pelo espaço pelos processualistas nasceu a partir dos aportes da Nova Geografia que, influenciada por teorias econômicas, começou a explicar a disposição espacial das sociedades baseando-se no pressuposto de um grupo sempre tender a aumentar as utilidades e a diminuir a relação esforço-distância. Estas posturas, tomadas pela Nova Arqueologia, permitiram que os sítios arqueológicos começassem a ser compreendidos como algo além do que pontos em um mapa, guiados por certos métodos operativos (VICHAFAÑEZ: 2011:135-150).
O processualismo considerava os sistemas culturais como adaptações às alterações do ambiente natural ou relacionadas à competição com sistemas culturais vizinhos. Tal relação sintética foi assimétrica como produto do determinismo ambiental das correntes de pensamento na maior parte do século vinte.
Os assentamentos refletem o ambiente, o nível tecnológico com que operam os construtores, e as diversas instituições de interação social e de controle que mantinham a cultura. Por serem os padrões de assentamento determinados por imperativos culturais, estes oferecem um ponto de vista estratégico para a interpretação funcional das culturas arqueológicas. Em consequência, os padrões de assentamento proporcionariam uma chave para a reconstrução dos sistemas ecológicos, culturais e sociais e constituem uma base para a extrapolação causal e culturalmente cruzada do estudo das formas de assentamento.
A articulação da aproximação ao padrão de assentamento não é apenas um conjunto de técnicas para identificar, descrever e classificar as jazidas arqueológicas, e sua Ecologia natural, dispersos ao largo de áreas espaciais. Os esforços de Willey são um exemplo da Geografia, definindo os estudos regionais como as diferenças espaciais dos fenômenos físicos e humanos naquele em que se relacionam com outros fenômenos próximos no espaço e causalmente relacionados.
Ao incorporar a suas análises os estudos sobre cerâmica ao controle cronológico de Ford, Willey contribuiu para o desenvolvimento de métodos e dados arqueológicos para a interpretação, em longo prazo, dos câmbios sociais dentro das regiões, baseados em transformações internas mais que em fatores externos tais como a difusão ou a migração. O conceito de padrão de assentamento repousa em princípios básicos compatíveis com um paradigma da paisagem.

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