ARQUEOLOGIA E
FISICOQUÍMICA
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
A
arqueometria é a aplicação dos conhecimentos da Física, da Química e da
Físicoquímica aos estudos arqueológicos. Os principais aspectos estudados em
arqueometria são a composição química, as técnicas de manufatura e as
cronologias dos vestígios resgatados.
O termo
“arqueometria” apareceu somente em 1958, quando surge a revista “Archaeometry”, boletim do Research
Laboratory for Archaeology and the History of Art (RLAHA), da Universidade de
Oxford, Londres, cujos fundadores foram Christopher Hawkes e lorde Cherwell,
sob a liderança de E.T. Hall, em 1955. Porém, os primeiros estudos que poderiam
ser chamados de arqueométricos haviam circulado já em 1786, quando George Pearson
publica o texto “Observations on some
ancient metallic arms and utensil; with experiments to determine their
composition”. O século XIX apresentou notável evolução das técnicas e
métodos usados pela arqueometria.
Em 1800,
aparecem os primeiros registros da aplicação das técnicas analíticas para
estudo de materiais de origem arqueológica, feito por Martin Klaproth, cujo
objetivo foi a identificação química de vidros e moedas. Em 1810, Giovanni
Fraboni publicou o estudo “Il Bronzo ed
altre leghe conosciute in antico”, sobre a composição dos metais
encontrados em uma tumba etrusca. Humphrey Davy escreveu em 1815 sobre cores
encontradas em ruínas dos balneários de Lívia Drusilla (2 a 4 d.C.), do
Imperador Vespasiano, em Roma (79 a 81 d.C.) e nas ruínas de Pompeia. Göbel
analisou diversos objetos metálicos encontrados em escavações nas províncias
bálticas da Rússia e, por meio de comparação de suas composições químicas com
outros objetos da pré-História europeia, concluiu que os objetos analisados
tinham procedência romana.
Em meados de
1850, o austríaco Jan Erazim Wocel sugeriu que estudos da composição química de
materiais arqueológicos poderiam ser usados para verificar a sua proveniência,
de modo a fornecer informações sobre sua manufatura e uso. No ano de 1864,
Louis Pasteur foi convidado pela Academia de Belas Artes de Paris para dar um
curso sobre química e física aplicada à arte. Esse convite estava em
conformidade com o pensamento positivista da época, que via com otimismo o
emprego da ciência em todos os setores da vida humana, e vinha à luz naquele
momento o que nos dias de hoje viria a se chamar “História da Arte Técnica”. Em
1867, os químicos Berzelius e Fresenius analisaram bronze antigo. Neste mesmo
período, Michael Faraday examinou uma amostra de cerâmica romana e vidros.
Um dos
primeiros estudos com abordagem físicoquímica foi a descoberta do raios-X em
1895, pelo cientista Wilhelm Konrad Roentgen, que no mesmo ano tentou fazer as
primeiras radiografias de pinturas. A análise por ativação com nêutrons se
tornaria padrão para a análise de materiais arqueológicos por volta de 1936, com
os trabalhos de Georg Hevesy e Hilde Levi.
A datação é
uma finalidade para a qual a técnica arqueométrica é muito usada. A técnica
mais antiga de datação é o arqueomagnetismo, cujo pioneiro foi Émile Thellier,
em 1936. Na década de 1940, deram-se a primeira datação por decaimento
argônio-potássio e também os métodos baseados nas análises de flúor e
nitrogênio. Também em 1940 foi desenvolvida uma ferramenta revolucionária para
a Arqueologia, Antropologia e Ciências da Terra: a datação por radiocarbono (14C),
por Wichard Frank Libby.
Segundo
Adovasio e Page (2011:152-154), nos primeiros anos do processo da datação por
radiocarbono, era preciso destruir amostras de grandes dimensões para se obter
resultados sofríveis. O método se baseia na presença de dois isótopos do
carbono na atmosfera o ¹²C e o 14C que são absorvidos pelos seres
vivos. O 14C é instável e se desitegra a uma taxa conhecida.
Supunha-se que a proporção dos dois isótopos na atmosfera fosse sempre a mesma
e que os seres vivos absorvem os dois isótopos indiferentemente. Ambas as
suposições estavam erradas. O nível de radiação das tempestades solares pode
alterar a quantidade de radiocarbono na atmosfera e os seres marinhos de águas
profundas não têm a mesma maneira de captá-lo que os seres que respiram ar. Com
o tempo foram feitos ajustes, o que permitiu maior fidedignidade nas datações.
Então, é preciso notar que os anos de radiocarbono não correspondem a anos de
calendário. Para que eles se ajustem é preciso que as datas sejam calibradas. Em revistas científicas após
a datação por carbono é preciso vir entre parênteses a expressão “calibrado” ou
“não calibrado”. No primeiro caso, levou-se em conta as variações de carbono
radioativo na atmosfera e habitat do ser vivo, no segundo não. Finalmente, as
datas de 14C só são úteis para datas anteriores à Revolução
Industrial. Os combustíveis fósseis liberam quantidades extras de radiocarbono
no ar e os testes nucleares modificarm profundamente a radiação da atmosfera.
A Segunda
Guerra Mundial provocou avanços científicos e tecnológicos em diversos campos.
Nos anos imediatos do pós-guerra, muitas técnicas analíticas foram voltadas
para os estudos arqueológicos, entre elas, a análise por raios-X, a microscopia
eletrônica, a espectroscopia de massa, a análise por ativação com nêutrons,
entre outras. A espectroscopia de ressonância paramagnética eletrônica (EPR)
descoberta por E. K. Zavoisky em 1945, também é uma das técnicas que apareceram
nesse período e hoje é aplicada à arqueometria.
Outro momento
de crescimento tecnológico foi o período da corrida armamentista entre os
Estados Unidos e a Rússia, conhecido como “Guerra Fria”. Neste período, foi
colocado à disposição do arqueólogo o uso de películas infravermelhas.
O limite
prático para a datação por radiocarbono é 45 mil anos (ADOVASIO; PAGE, 2011:
154), assim procuram-se outros métodos de datação para elementos mais antigos.
O método potássio-argônio foi criado para datação de rochas, porém, como a
meia-vida do 40K (potássio quarenta) é de 1,35 bilhão de anos, os
intervalos só interessam para intervalos de milhões de anos.
Em 1953 é
descoberta a datação por termoluminescência que nos dá datas confiáveis de até
40 mil anos, um pouco mais que o radiocarbono. No ano de 1954, J. Robert
Oppenheimer, o pai da bomba atômica, sugeriu a Sayre e a Dodson que a análise
por ativação com nêutrons pudesse ser útil para a análise química de cerâmicas
arqueológicas com o propósito de determinar sua procedência, precedendo o uso
dessa técnica no campo da arqueometria. Também é possível datar quando
determinados tipos de rochas estiveram expostos ao fogo, especialmente o sílex.
Em 1956, John Stone e L.C. Thomas usaram espectroscopia de emissão óptica (OES)
para determinar traços de elementos presentes em faianças manufaturadas no
Egito e alguns lugares da Europa, com o fim de identificar as características
do quartzo, da areia e do álcali usado na sua manufatura.
Para uma
maior exatidão nos resultados de 14C, foi desenvolvido o método de
espectometria de acelaração de partículas (AMC segundo a sigla em inglês). Os
primeiros relatórios sobre material arqueológico analisado por ativação com
nêutrons já haviam sido publicados em 1957 por Edward Vincent Sayre e Richard
W. Dodson, porém apenas em 1962 a técnica é mencionada para a datação de
cerâmica. Os procedimentos precisos de medição só foram desenvolvidos por volta
de 1970. O material analisando é colocado em um acelerador de partículas e,
assim, é possível contar a quantidade total de carbono na amostra e não apenas
aqueles que se deterioraram. Isso permite usar amostras bem menores de
material, pois o método é destrutivo, ou, usando-se a mesma quantidade de
material, obter datas muito mais precisas.
Até a década
de 1970, a aplicação da arqueometria não havia se difundido plenamente entre as
instituições universitárias e museológicas. As últimas etapas de relevância em
estudos arqueométricos foram o desenvolvimento de equipamentos de maior sensibilidade,
precisão e exatidão, além da possibilidade do uso de dados processados em
computador, tendo como pioneiro Irwin Scochar, no final do ano de 1975 (TOYOTA;
2009).
Atualmente, é
intenso o uso de técnicas fisicoquímicas em estudos de vestígios arqueológicos.
Há exemplos da aplicação de técnicas usadas em pesquisas arqueométricas
envolvendo material cerâmico, entre elas, destacam-se as técnicas para análise
da temperatura de queima e seu processo de confecção, tais como: difratometria
de raios-X (XRD), espectroscopia de ressonância paramagnética eletrônica (EPR)
e espectroscopia Mössbauer. Técnicas de microscopia óptica e microscopia
eletrônica de varredura (MEV) vêm sendo usadas em estudos de tecnologias
antigas de manufatura. Técnicas como a termoluminescência (TL) são usadas para
a datação de cerâmicas. Técnicas analíticas estão disponíveis para estudos da
composição química e mineralógica de materiais de origem arqueológica e de
objetos de arte; entre elas estão: a análise por ativação com nêutrons (NAA),
fluorescência de raios-X (XRF), difratometria de raios-X (XRD), microscopia
eletrônica de varredura, emissão de raios-X induzida por prótons (PIXE),
espectrometria de massas com fonte de plasma indutivamente acoplado (ICP-MS),
espectroscopia de absorção atômica (AA), espectroscopia de supressão Compton,
entre outras técnicas. Para os estudos de proveniência, a análise da composição
química do material cerâmico é um parâmetro analítico de extrema importância (lembrando
que são as diferenças nas concentrações dos elementos nas amostras que permitem
diferenciar as cerâmicas). Entre as técnicas para determinação de elementos
traço, a INAA, associada à espectrometria de raios gama de alta resolução, tem
sido usada para a determinação da composição química nas amostras, por
apresentar vantagens, tais como alta sensibilidade, precisão e exatidão. Além
de usar na análise uma massa pequena da amostra, conveniente em se tratando de
material arqueológico.
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