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ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA

Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro

A Arqueologia do século XIX colocou a Arqueologia e a História como disciplinas complementares, uma verificando com documentos e a outra com os artefatos. Tendo a preocupação de que cada afirmação fosse acompanhada de provas e fontes de citação. As questões políticas e as mudanças revolucionárias produziram um renovado interesse pela historiografia do séc. XIX, levando a uma atitude mais crítica pra com os textos anteriores (TRIGGER; 2004:169). Nessa época, os arqueólogos clássicos começam a procurar modos de recolher de sítios históricos informações para corroborar e ampliar o conhecido a partir de registros escritos.
A Arqueologia permite obter informações sobre as épocas “históricas”, informações que não seriam acessíveis ou pouco acessíveis apenas através das fontes escritas e que, independentemente da eventual abundância de fontes escritas, dever-se-ia, para cada época e em cada região, sondar-se as possibilidades de se usarem também fontes não escritas, com os métodos da Arqueologia, da Antropologia e da Etnologia, com o objetivo de estabelecer perspectivas mais coerentes e mais amplas para a História.
Muitas pesquisas acerca dos vestígios de sociedades que legaram textos, ou de povos mencionados em textos de outras sociedades, fazem um caminho contrário; colocando documentos escritos e também estudos de História e Antropologia a serviço da compreensão de sítios e objetos.
Nestes casos, concepções gerais acerca de como vivia e pensava uma população servem à compreensão do cotidiano num local restringido espacialmente pelo próprio arqueólogo e num tempo também arbitrado.
Dentro das correntes de pensamento marxistas, a História é a única ciência humana, sendo todas as outras suas subdivisões. Assim, os arqueólogos marxistas quase sempre foram historiadores. Assim tanto para a escola marxista, quanto para a historicoculturalista, a Arqueologia é uma ciência auxiliar da História assim como a Diplomática ou a Paleografia.
Reagindo a submissão da Arqueologia à História, o processualismo, com sua ênfase na aproximação da Arqueologia pré-histórica com a Etnografia, foi o responsável pelo hiato entre a Arqueologia histórica e a pré-histórica. O positivismo do processualismo norte-americano criou uma falsa dicotomia entre História e Ciência (TRIGGER; 2004:304-12).
Para os processualistas, há duas considerações distintas ‑ em decorrência do nível cultural dos grupos humanos ‑ para a Arqueologia. Para o estudo de povos que já dispunham de documentos escritos, a Arqueologia é vista como um complemento útil, uma ilustração dos textos históricos. No caso de comunidades pré-históricas, a Arqueologia é o substituto não escrito do registro histórico autêntico (CARVALHO; 2003:13).
O arqueólogo de sociedades históricas hoje não mais assume como seu dever o preenchimento das lacunas deixadas pelos documentos escritos. Questionar qual a importância dos resultados arqueológicos no estudo dos textos antigos é tão suficiente quanto perguntar pela contribuição das fontes textuais no trabalho de interpretação arqueológica, pois está desfeita qualquer relação hierárquica entre os textos e as coisas.
Um pensamento como este jamais levaria a considerar o recurso às fontes textuais em Arqueologia como algo impróprio ou acidental e acessório. A Arqueologia se faz em etapas e precisamos situar o uso dos documentos escritos. Nas primeiras fases da prospecção, os documentos são úteis para indicar onde procurar os sítios arqueológicos, durante a fase de classificação dos objetos, catálogos e descrições devem ser usadas para a análise do material coletado, mas no último estágio da pesquisa arqueológica (a interpretação), se quisermos manter o interesse voltado à materialidade dos sítios e objetos, ou ainda, se pretendermos preservar uma postura crítica em relação à “esfera ideológica” que o texto representa, devemos deixar que os objetos falem por si, contrariando os textos.
A incorporação dos textos na interpretação arqueológica não pode acontecer sem observar que há inevitavelmente, uma representação ideológica da existência, transposta para o texto escrito hoje disponível. Embora também seja adequado reconhecer que, na oposição entre cultura material e imaterial, ambas são produto do trabalho humano socialmente dado, duas expressões da cultura (SANCHES, 2008:25-37).

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