ARQUEOLOGIA HISTÓRICA
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
A definição
exata de Arqueologia Histórica constitui uma questão controversa na atualidade,
e é imprescindível entender seu contexto, pois, em caso contrário, poderemos
incluí-la erroneamente em uma esfera mais ampla no tocante ao seu objeto de
pesquisa. Ela se dedica ao estudo arqueológico da presença europeia no
continente americano, ao se sobrepor aos povos nativos anteriores a ela, embora
a maioria de seus praticantes tivessem sido primeiro pré-historiadores ou
conjugassem uma e outra em sua trabalho de campo. A Arqueologia Histórica deve
então ser compreendida não como uma Arqueologia da História, mas como uma
Arqueologia da colonização e da sociedade dela resultante depois da eliminação
das sociedades anteriormente fixadas.
Em 1851,
Daniel Wilson cunhou o termo “Pré-História” para designar o período anterior à
existência da escrita (TRIGGER; 2004:81). Como a escritura - o principal
critério proposto para traçar a divisória entre Pré-História e História ‑ foi
introduzida nos EUA e em outras regiões da América com a chegada dos europeus,
a Arqueologia dos povos com escrita e a Arqueologia dos processos de expansão
europeia encaixavam-se à perfeição, cronológica e conceitualmente. Embora esta
dicotomia seja hoje bastante discutida e até mesmo abandonada por muitos
historiadores, há, em certas partes do mundo, em particular na América do Norte
e no Brasil, uma dicotomia entre a Arqueologia Pré-Histórica e a Arqueologia
Histórica (GHENO, MACHADO; 2013: 161).
O termo
Arqueologia Histórica, neste contexto, tem sido usado para referir-se ao estudo
de um período específico, o Moderno do século XV em diante, especialmente nas
Américas. A expressão Arqueologia Histórica, com tal definição, quase não é
usado na América Hispânica ou em outros continentes. Esta vontade separatista
se fortaleceu com o passar do tempo, até que no fim do século XX começou-se a
discutir a sua validade.
O termo
“Arqueologia Histórica” começou a tornar-se comum nos Estados Unidos a partir
do curso ministrado por John Cotter na Universidade da Pennsylvania com esse
nome no ano acadêmico de 1966-67. Seus interesses se circunscreveram
inicialmente ao periodo de contato entre europeus e nativos americanos e à
excavação de lugares euro-americanos emblemáticos, como Williamsburg ou
Jamestown.
A Arqueologia
Histórica liga-se às noções de identidade, tratando de sociedades, de uma forma
ou de outra, relacionadas ao arqueólogo. No Velho Mundo, a Arqueologia é
encarada como o estudo de sua própria civilização, sejam elas as civilizações formadoras
do legado ocidental, sejam as anteriores à escrita, mas ainda históricas,
inseridas numa narrativa das fontes escritas, como é o caso da Arqueologia dos
celtas. Nas Américas, a disjunção com a Pré-História estabelece essa ligação da
Arqueologia Histórica com a sociedade americana pós-colonial, às expensas dos
indígenas, encarados como o “outro”, o selvagem contraposto à “civilização”
(FUNARI; 2002:217-218).
Rossano
Bastos (2004:28-29) identifica uma “teimosia” em pensar uma Arqueologia
brasileira como domínio exclusivo da abordagem pré-histórica ou pré-cabralina,
deixando de lado o contexto da colônia, que tem a nos ensinar sobre as nossas
desigualdades sociais e nos fornecer instrumentos para diminuir a dívida com os
índios, negros e grupos vulneráveis. No Brasil, ao contrário do resto da
América Latina, a Arqueologia nasce esvaziada de sentido político quanto à
identificação da sociedade com o passado estudado, contrastando com uma prática
latino-americana na qual a preservação e o estudo do patrimônio arqueológico
torna-se instrumento de resistência política ao colonialismo europeu e de
afirmação de ideologias nacionalistas, anticoloniais e revolucionárias. O
caminho trilhado pela Arqueologia no Brasil foi uma opção política, e revela
escolhas convenientes para o desenvolvimento de seus estudos.
O estudo da
Arqueologia Histórica está ligado, portanto, à visão ocidental de transferência
cultural, que considera apenas os contatos estrangeiros do Velho Mundo com os
nativos do Novo Mundo (ANDRADE; 2007:172).
Com essa
definição entende-se porque em grande parte da América Latina o termo não é
usado, pois nestes países a população indígena, apesar de subjugada, ainda
continua como um elemento importante da sociedade atual.
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