ARQUEOLOGIA
FORENSE E DE GUERRA
A Arqueologia
da contemporaneidade é útil quando se trata de exumar os corpos enterrados
anônima ou clandestinamente em situações de conflito, como nas fossas comuns da
Guerra Civil Espanhola e do franquismo, das ditaduras argentinas e chilenas, do
genocídio dos tutsis no Ruanda, do massacre de Srebrenica, na Bósnia e
Herzegovina ou para achar os túmulos das vítimas de um assassino em série em
Yorkshire. Comumente referido como Arqueologia Forense, x apela às habilidades
técnicas, metodologia e qualidade analítica dos processos taxonômicos de
arqueólogos treinados pela Antropologia (EID; 2017).
As
habilidades profissionais na Arqueologia forense e de campo de batalha são
empregadas no estudo de crimes de guerra e de fossas comuns. Essas
investigações têm diferentes propósitos: recolher provas para justiça
retributiva, combater os esforços de negação e revisionismo, ajudar no processo
de reconciliação e rememoração da atrocidade para turistas de guerra. Bernbeck
e Pollock propuseram uma “Arqueologia de perpetradores”, onde se usa o processo
de expor e descrever paisagens de atrocidade para provocar o discurso público e
explorar aspectos desconfortáveis da História recente. Ao trabalhar com questões
em paisagens compartilhadas, a Arqueologia pode refrear o conflito (PERRING,
VAN DER LINDE; 2009:197-213).
A inserção da
disciplina ao âmbito forense, especialmente ligado às violações dos direitos
humanos, levou uma série de traços particulares a seu fazer. A investigação se
leva a cabo no marco de um juízo e o arqueólogo atua como perito, sendo o
objetivo a recuperação da máxima quantidade de informação tendente à
identificação da vítima, causa e modo da morte. Em seu labor, o arqueólogo
logra estabelecer épocas de inumação, remoções, traços das identidades
envolvidas nos feitos (vítimas e vitimadores). Daí se desperta o poder que tem
a Arqueologia em sua experiência técnica para estes contextos políticos em que
se necessita patentear “a evidência” a partir de restos materiais. A relação de
cotidianidade com a materialidade e o trabalho com o subsolo a que o arqueólogo
está acostumado, permite estabelecer uma diferença a respeito de outros
professionais vinculados a esta problemática (FOINZALIDA; 2017: 131-147).
A interpretação da evidência arqueológica é
influenciada tanto por condições políticas, sociais e econômicas, quanto pela
tendência do indivíduo e grupos a afirmar seus interesses. A melhor prática
arqueológica deve-se construir a partir de uma compreensão das estruturas de
poder sociopolítico e cultural locais e construir uma noção de patrimônio que
ultrapasse a materialista. O artefato arqueológico tem uma dupla natureza, ele
é o testemunho de uma ação passada, sua produção e uso; e é portador de uma
atividade futura, seu estudo. É o documento da História e é a ilustração da
teoria desenvolvida pelos arqueólogos. Assim, o artefato deve ser considerado
sob dois aspectos: primeiro, pelo seu significado para a população que o
produziu e, segundo, pelo seu significado atual, museológico e científico. O
objeto arqueológico foi um objeto cultural e tecnológico no passado, mas é um
objeto cultural e patrimonial no presente. O objeto arqueológico é um mediador
na tomada de consciência pública sobre o patrimônio na demonstração, na
restituição do conhecimento adquirido e nos questionamentos.
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