ARQUEOLOGIA
HISTÓRICO-CULTURAL (FORMALISTA)
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
A escola
empírica do século XIX, baseada sobre o positivismo científico, sustentava que
a tarefa básica dos arqueólogos era elaborar descrições detalhadas e precisas
dos artefatos, abstendo-se de tirar conclusões históricas ou sociológicas
prematuras. Somente absorvendo os métodos positivistas, a Arqueologia poderia
ser considerada uma ciência pela academia (AUGUSTO, M.G.; SOLTYS, F.A;
2007:13). Esta escola é chamada de “formalista”, pois estudava atentamente a
morfologia dos artefatos e procurava ordená-los em sequências cronológicas.
Na Arqueologia,
vem à luz a ideia de que, atendendo ao pretendido monismo metodológico, a
explicação científica devia ter igual forma em qualquer ciência,
especificamente a partir do exemplo do método de estudo das ciências
físico-naturais. O reducionismo havia-se apoderado de parte das Ciências
Sociais, para as quais o objetivo deveria ser descobrir generalizações e
formular leis de comportamento, sendo a teoria geral de sistemas, em alguns
casos, um meio para poder alcançá-lo (VICHAFÁÑEZ; 2011: 135-50).
Thomsen desenvolveu
no século XIX o método de seriação como forma de datar artefatos sem apoio de
registros escritos. Ele propôs a hoje clássica divisão da Pré-História em três
idades: da Pedra, do Bronze e do Ferro a partir da análise de coleções de
museus tendo criado o método da seriação. O desenvolvimento da Geologia nessa
época desenvolveu os métodos de datação relativa permitindo estudos mais
acurados do Paleolítico. Oscar Montelius desenvolveu o método de seriação de
Thomsen e criou o método tipológico. Montelius, influenciado pelo
Evolucionismo, achou tendências evolutivas para os artefatos (TRIGGER;
2004:12).
Era possível
pela seriação dizer se um artefato era mais antigo que outro, porém sem uma
datação absoluta era impossível dizer se o ítem encontrado era dez, cem ou mil
anos mais velho que o anterior em sua série. Como a datação através da Bíblia
colocasse a origem da humanidade havia apenas seis mil anos, era de se esperar
que a evolução dos objetos tivesse sido rápida. Foi preciso muito tempo para
que os arqueólogos começassem a desconfiar que a humanidade era muito mais
antiga do que se pensava. Peter Lund, trabalhando no Brasil, ajudou a lançar
dúvidas sobre a teoria do dilúvio bíblico e, entre outros, ajudou a levar as
origens da humanidade para tempos muito remotos, como pretendido pela teoria de
Darwin (FARIA; 2008:139-56).
Os objetos
podiam ser descritos assim como sua evolução e a correlação dos artefatos entre
si, porém não se vislumbrava como relacionar os artefatos com os homens que os produziram
senão ligando as peças encontradas com povos anteriormente descritos por algum
historiador ou cronista antigo. Percebeu-se então que muitos artefatos
pertenceriam a povos cuja existência não se suspeitava antes e que só haviam
deixado restos materiais.
Evidentemente,
a seriação pode ser influenciada por fatores subjetivos e criar uma falsa
sequência de fatos, principalmente quando temos artefatos pouco elaborados como
seixos lascados e lascas simples. A seriação funciona apenas em casos específicos.
No final do
século XIX aparece o conceito de cultura
arqueológica, que era entendida como o “conjunto de material pré-histórico
circunscrito” no tempo e no espaço servindo primeiro no contexto do Neolítico
europeu. A percepção histórico-cultural resultou em significativo
aperfeiçoamento do método arqueológico no tocante à seriação, estratigrafia e
classificação, quando os arqueólogos tornavam-se mais interessados em questões
históricas que evolutivas, perceberam o valor do controle rígido de variação cronológica
e cultural (TRIGGER; 2004:157-90).
As navegações
levaram o europeu a conhecer povos que não conheciam a metalurgia. Isso os
levou a imaginar se os instrumentos líticos encontrados na Europa seriam de confecção
humana levando ao primeiro abalo da convicção a cerca da historicidade da
narrativa dos primeiros capítulos da Bíblia sobre a metalurgia existir desde os
tempos de Caim (TRIGGER; 2004:51-52). As sociedades não-europeias eram vistas
como estáticas e representantes de estágios atrasados de civilização pelos
quais a sociedade europeia já tinha passado. Ainda hoje, a ideia de que as
sociedades indígenas vivem na “idade da pedra” como viviam seus ancestrais
antes do contato com o homem branco é muito popular. Para um ocidental,
evolução implica, necessariamente, em evolução tecnológica.
Ao sustentar
que as culturas modernas, enfileiradas desde a mais simples à mais complexa,
recapitulavam a sequência através da qual as sociedades europeias tinham
evoluído, o evolucionismo negava haver qualquer coisa de novo a ser descoberto
a partir do registro arqueológico. O principal valor da Arqueologia residia em
confirmar que a evolução acontecera de fato. Na medida em que os dados
arqueólogos na forma de artefatos diagnósticos podiam revelar o grau de desenvolvimento
que uma cultura tinha atingido, os dados etnográficos relativos a sociedades
contemporâneas em igual estágio eram capazes de suprir tudo que se precisava
saber a respeito da vida associada à cultura. Essas analogias provocavam um
reviver do antiquarismo, na medida em que elas faziam a Arqueologia recuar a
uma situação na qual os artefatos apenas ilustravam o passado (TRIGGER;
2004:142).
Os alemães
levaram tal conceito ao extremo na primeira parte do século XX. Gustaf Kossina
propôs que as culturas são reflexos da etnicidade e que similaridades e
diferenças de ordem material correspondem a semelhanças e diferenças de ordem
étnica. Kossina acreditava que a continuidade cultural indicava necessariamente
continuidade étnica. Afirmava que a distribuição de tipos de artefatos
determinava onde grupos étnicos tinham vivido em diferentes períodos
(Arqueologia dos assentamentos). Kossina prestava pouca atenção a testemunhos
arqueólogos do tipo casas e tumbas, mas baseava suas interpretações em
artefatos(TRIGGER; 2004:159-62). A falha em provar a correlação entre culturas
pré-históricas e culturas etnográficas de modo unilinear levou a um impasse
(TRIGGER; 2004:141-43).
Ideias
racistas desta época levavam a ideia do difusionismo, isto é, as invenções
teriam surgido em um determinado lugar e daí se difundido para outros. Os
arqueólogos difusionistas acreditavam. Existiriam os povos superiores
“criadores de cultura” e os inferiores que simplesmente receberiam as inovações.
Assim, a agricultura teria se originado uma única vez no Crescente Fértil e daí
se expandido para as outras regiões. Se houve uma agricultura chinesa, ela
certamente (para esses teóricos) derivou-se direta ou indiretamente dos
cultivos do Oriente Médio. Isso teria acontecido com o arco e flecha, com a
roda, com a metalurgia e todas as demais inovações tecnológicas. Um eco dessa
teoria na atualidade é a pseudoarqueologia que atribui a “deuses astronautas” a
construção de pirâmides e outros aspectos da civilização. Segundo as ideias
difusionistas, a maioria dos seres humanos é incapaz de evoluir por si só e
precisa de uma ajuda exterior, seja da “raça ariana” ou dos extraterrestres.
A partir da
década de 1920, Vladislav Ravdonikas cria a noção de “cultura material”,
reforçando os elos entre cultura e História. Na União Soviética surge, pela
primeira vez, a ideia de que não somente os monumentos como túmulos, castelos e
muralhas teriam valor arqueológico, mas também as cabanas dos camponeses, as
oficinas dos artesãos e demais testemunhos da vida cotidiana, deste modo os
arqueólogos soviéticos foram pioneiros no desenvolvimento da Arqueologia dos
assentamentos e na explicação social dos dados arqueólogos (TRIGGER;
2004:210-35).
Houve uma
demanda por formação profissional, melhoria técnica e incremento da qualidade
dos trabalhos. Os arqueólogos deixam de ser vistos como diletantes sustentados
por mecenas ricos e passam a ser vistos como pesquisadores profissionais que
deveriam ser financiados pelo Estado. Isso cria uma divisão entre os
arqueólogos “amadores” e os “profissionais”. Os arqueólogos profissionais, em
grande parte movidos pelo desejo de justificarem sua posição, começam a criar
critérios mais rígidos para validação de descobertas arqueológicas.
Diante da
possibilidade de se conseguir financiamento público para uma escavação, são
criados nos EUA critérios para julgar a autenticidade de um síto, que são, a
presença inegável de artefatos; o contexto indisputável e um controle
cornológico válido e confiável (ADOVASIO; PAGE, 2011: 189).
O paradigma
histórico-cultural explorou técnicas para identificar, classificar e
interpretar a cultura material, suas rotinas estabelecidas em laboratório
acabaram por constituir o núcleo da prática arqueológica: desde a identificação
da matéria-prima, sua origem e propriedades; do modo como são produzidos os
artefatos; da sua função e dos usos a que eles foram submetidos, à análise dos
seus atributos físicos, design e
estilo, sua ordenação em tipologias, datações e seriações. Os resultados são
direcionados para a construção de categorias espaçotemporais, como fases e
tradições, e para a atribuição dos achados a grupos específicos.
Esta escola
determinou que a mínima unidade básica para definir a interseção entre a
dimensão espacial de um horizonte arqueológico e a continuidade temporal de uma
tradição é uma “fase”. Uma fase, em sua forma mais básica, representa a
expressão regional de vários componentes de ocupação. Uma “indústria”, por sua
vez, é uma espécie de tradição espacialmente limitada que, diferentemente da
fase, não pode ser ligada a uma outra tradição.
As
sistemáticas de tempo e espaço viam o espaço cultural como algo limitado
geograficamente e entendiam o tempo como uma progressão linear. As análises de
fase, e os marcos analíticos espaço-temporais similares, realçam as similitudes
culturais materiais dos grupos, e tendem a homogeneizar os restos para formar
assinaturas culturais.
As análises
de “fase e tradição”, porém, não são boas para dar conta dos fenômenos culturais
sincrônicos, cujo modelamento está condicionado por processos contingentes,
baseados no contraste entre percepções culturais, ações e relações. Embora bem
sucedida por quase um século, esta escola não conseguiu perceber a
circularidade em que caiu, ao produzir mais informações do que conhecimentos
(LIMA:2011:11-23).
Comentários
Postar um comentário