ARQUEOLOGIA
PRÉ-CIENTÍFICA
Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro
Muitos são os
pontos de vista sobre o início da Arqueologia e quem teria sido “o primeiro
arqueólogo”. Thomas Jefferson, Johann Joachim Winckelmann, William Flinders
Petrie e outros concorrem pelo título de “pai da arqueologia”, porém todos os
grupos humanos parecem ter alguma curiosidade quanto a seu passado. Artefatos
oriundos de um passado desconhecido foram coletados por sociedades tribais.
Pontas de projéteis, cachimbos de pedra e ferramentas de cobre nativo, feitas
milhares de anos antes, são encontradas em sítios iroqueses do século XV e XVI
como eram coletados por camponeses da Idade Média europeia. Em muitos casos
eram atribuídas origens sobrenaturais e poderes mágicos a esses objetos.
Resíduos do passado também eram usados em cerimônias religiosas. Astecas faziam
rituais nas ruínas de Teotihuacán que incluíam esculturas olmecas nos depósitos
rituais de Tenochtitlán. Artefatos podiam ser tidos como relíquia de
governantes ou de períodos de grandeza nacional. Coleções de antiguidades já
eram comuns no Egito e Mesopotâmia antigos. Gregos e romanos preservavam
relíquias do passado. Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, ficou famosa
por promover escavações que “encontraram” pedaços das cruz de Cristo e estes
pedaços foram fragmentados e espalhados por várias igrejas da Europa desde a
Baixa Antiguidade. Na Idade Média, a procura por relíquias de santos foi um dos
motivos que levaram às Cruzadas.
Na
Renascença, as mudanças econômicas e sociais aceleradas que marcaram o fim do
feudalismo na Norte da Itália levaram os eruditos a tentar justificar inovações
políticas demonstrando que tinham precedentes nos tempos antigos. Muitas
cidades buscavam provar seu direito à independência e automia em relação aos
soberanos e ao papa. Suas teses refletiam os interesses da nobreza e da
burguesia urbana ao demonstrar que na Antiguidade havia a instituição das
cidade-estados independentes de impérios (TRIGGER; 2004:20-35).
Houve um
grande interesse pela cultura clássica. Os eruditos, procurando estruturar
árvores genealógicas que favorecessem seus senhores, ou documentos que
provassem a posse de um determinado território, começaram a examinar documentos
esquecidos e constataram a diferença entre passado e presente e perceberam que
cada período tinha de ser entendido em seus próprios termos. Além da palavra
escrita, também os objetos materiais sobreviventes do passado poderiam constituir
importante fonte de informação sobre a civilização clássica. Exemplo disto são
os escritos de Vitrúvio sobre Arquitetura. Vários estudiosos renascentistas
comparavam as descrições dos textos com os monumentos que ainda restavam em sua
época para poder melhor entendê-los.
Embora
dependente de fontes escritas, a História da Arte estendeu o estudo do passado
à esfera do material. Obras de arte e monumentos arquitetônicos sobreviventes
de períodos antigos podiam ser estudadas diretamente sem a necessidade de uma
explicação textual. A decifração dos escritos e a caça aos tesouros abriam
caminho para as descobertas científicas. A escavação de Pompeia se inicia como
uma caça ao tesouro para prover ornamentos para o jardim do rei de Nápoles.
Os estudos
clássicos também forneceram o modelo para o desenvolvimento da egiptologia e da
assiriologia. Estas dependiam mais da Arqueologia que os estudos clássicos,
pois no início ninguém podia entender as escritas desses povos. Tal fato trouxe
à consciência o quanto os objetos resgatados são fundamentais como fonte de
informação. Apesar de terem desenvolvido o método de datação relativa e de
estudos estratigráficos, os antiquários não avançam por acreditarem que o
modelo da Arqueologia clássica fosse o único possível e que o saber histórico
só teria possibilidade de ser adquirido a partir de registros escritos e de
tradições orais confiáveis. Isso explica, por exemplo, a corrida pela
decifração da Pedra da Roseta.
O inicio do
nacionalismo europeu fortaleceu o interesse pelos vestígios materiais do
passado. Estudos de remanescentes físicos começaram a ser suplementares aos
testemunhos escritos e a tradições orais, dando origem a uma nova corrente de
antiquarismo. Alguns antiquários passaram a fazer coleções de curiosidades
locais. Até então, as coleções de artefatos se compunham de relíquias
eclesiásticas e de famílias nobres.
De início na
Grã-Bretanha, estas pesquisas procuravam dar uma história digna ao colonialismo
inglês e mostrar que a igreja da Inglaterra sempre fora de fato independente da
igreja romana, dando uma procedência virtuosa à Igreja Anglicana, que não teria
surgido apenas para satisfazer os caprichos de Henrique VIII, mas estaria
resgatando uma independência primitiva. Até hoje, as pesquisas por uma
colonização nórdica da América do Norte anterior às navegações ibéricas são
movidas principalmente pelo orgulho nacionalista dos norte-americanos. A
pesquisa antiquária desenvolveu-se na Escandinávia por conta da rivalidade
política entre Suécia e Dinamarca. Foram incentivadas pelos reis como
testemunhos de grandezas das suas nações. No século XVIII, houve também um
desejo cada vez maior de mostrar os avanços culturais dos celtas reconhecidos
como ancestrais dos franceses.
No Norte da
Europa, porém, quase não havia documentos anteriores ao ano mil. O estudo dos
remanescentes físicos começou a suplantar os testemunhos escritos e a herança
oral. Na Suécia foram editadas as primeiras leis nacionais para preservação dos
monumentos em 1666 (TRIGGER; 2004:45-51). As antiguidades locais passaram a ser
consideradas tão valiosas quanto as gregas e romanas.
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