CERÂMICA
prof. dr. Roberto da Silva Ribeiro
A cerâmica
foi o primeiro produto artificial criado pelos seres humanos. Os artefatos
cerâmicos constituem, pela abundância relativa e pelas boas condições de
conservação, grande parte dos testemunhos materiais que soem perdurar dos
grupos do passado.
As cerâmicas
são manufaturadas a partir do que, sob o ponto de vista dos geólogos, são
rochas sedimentares, chamadas popularmente de “terras”, cujo principal
componente são a argila, alumínio e silicatos de composição indefinida.
Impurezas menores são encontradas em concentrações muito pequenas, mas são os
“elementos traço” (menores 0,1%), cuja presença na argila é “acidental”, os que
proporcionam a melhor informação para estudos arqueométricos, pois é estatisticamente,
improvável que a concentração de elementos traço na argila de uma localidade
coincida quantitativamente com a de argila de outras localidades. As
propriedades microscópicas da cerâmica, como a composição química e
mineralógica, são capazes de revelar informações seguras a respeito das
comunidades antigas e este é um dos principais motivos pelos quais
pesquisadores vêm fazendo uso de técnicas eficazes para identificar cerâmicas.
A análise da pasta por ativação neutrônica pode indicar quais foram as fontes
de matéria prima. O calor da queima pode ser avaliado através das medições nas
partículas de ferro contidas na argila e indica o procedimento de elaboração da
cerâmica (PROUS; 2003:27).
Inicialmente
se pensava que a cerâmica estaria sempre relacionada com a agricultura. A
adoção de um regime de vida sedentário ou mesmo seminômade teria propiciado a
adoção de equipamentos mais pesados e mais diversificados, inclusive vasilhas
de pedra-sabão e, mais tarde, cerâmica para emprego culinário (TRIGGER;
2004:272). Porém, em diversas partes do mundo, durante as últimas etapas do
Pleistoceno e também durante a transição ao Holoceno, diferentes grupos que se
enquadravam no modus vivendi
caçador-coletor vão usar objetos feitos de cerâmica. Não só horticultores, que
usam plantas cultivadas como fonte secundária de alimentos, como os tupis no
Brasil, mas coletores sofisticados, que aproveitam sementes duras, vão se
beneficiar do uso da cerâmica.
O uso de
recipientes ou vasos de cerâmica se inicia de forma independente em diferentes
zonas e momentos. A evidência mais antiga constatada foram nas covas de Fukui
(Japão), por volta de treze mil anos AP (antes do presente) e em um contexto de
grupos de economia de amplo espectro. Na zona subsaariana e no vale central do
Nilo as datações radiocarbônicas situam os primeiros vasos cerâmicos em
contextos de grupos seminômades de caçadores-coletores em uma economia de amplo
espectro por volta de dez mil AP. No Oriente Próximo, na primeira metade do
sétimo milênio AP aparecerão as primeiras produções cerâmicas, praticamente dois
mil anos após a consolidação das práticas agrícolas e pastoris e do processo de
sedentarização. Na América, os dados mais antigos correspondem à jazida de
Taperinha (Brasil) no início do sétimo milênio AP, em grupos de
caçadores-coletores sem indícios de atividades agrárias, enquanto na
Mesoamérica acontece na metade do quinto milênio AP (CLOP; 2008:25-37).
Desde
trabalhos pioneiros no Equador, Colômbia e litoral amazônico em meados do
século XX, sabe-se que o Norte da América do Sul abriga os centros mais antigos
de produção cerâmica no Novo Mundo. Pesquisas recentes têm corroborado este
quadro através da identificação de complexos cerâmicos antigos com datas que remontam
a quatro mil AC, ou mais (LIMA, NEVES; 2007:23).
Já em 1916,
A.L. Kroeber constatou haver uma série de sítios arqueológicos vizinhos e onde
a cerâmica apresentava diferenças de um sítio para outro. Kroeber coletou cacos
de cerâmica de 18 desses sítios, dividiu-os em três tipos gerais e definiu uma
sequencia histórica para esses sítios. Esse procedimento foi adotado por outros
arqueólogos norte-americanos. (TRIGGER; 2004:194).
Na década de
1940, Meggers e Evans elaboraram uma tipologia para o enquadramento do material
arqueológico na América do Sul, dentro de um enfoque histórico culturalista.
Eles classificaram o material dentro das unidades chamadas “tradições” e
“fases”. No PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica), o casal Evans
adotou, como estratégia de abordagem dos sítios arqueológicos, as coletas de
superfície e de sondagens feitas a partir de níveis artificiais.
A escavação
em níveis artificiais, em que se escava uma determinada áreas na profundidade
de alguns centímetros por vez, em geral dez, ignorando-se a estratificação
natural do terreno, não permite o estabelecimento de uma datação relativa
segura, uma vez que não leva em conta a tafonomia, ou seja, a dinâmica em que
os objetos foram soterrados. Este problema, porém, não é levado em conta, ou
porque se está fazendo um levantamento preliminar, ou, como no caso do PRONAPA,
não se acredita que modificações rápidas aconteceram dentro de uma cultura, já
que os índios deveriam ser pouco inclinados às mudanças.
Os materiais
foram ordenados conforme a seriação de Ford, procedimento que classifica os
vestígios a partir de tipologias concebidas para detectar mudanças através do
tempo e do espaço. Segundo esta linha de pesquisa, os materiais são
classificados nas categorias de fase e tradição inspiradas em Willey e
Phillips. Para Meggers e Evans, fase e tradição mantêm uma relação igual à que
o gênero biológico tem com a espécie; já a tradição persiste por mais tempo e
ocupa áreas mais extensas do que a fase. Esta é definida conforme uma sequência
seriada e representa a expressão arqueológica de uma comunidade etnográfica. A
noção de “indústria”, que seria uma tradição mais restrita e, diferentemente da
fase, difícil de ligar a outra tradição, quase não é usada na arqueologia
brasileira.
No referente
aos sítios cerâmicos, as pesquisas feitas no âmbito do PRONAPA forneceram um
panorama espaço-temporal das tradições arqueológicas encontradas no Brasil que
ainda hoje são uma referência para a Pré-História. No que se refere à análise
de outros tipos de sítios, a fragilidade teórico-metodológica dessa linha de
pesquisa fica evidente e este é o caso específico da abordagem de sítios
históricos. (SANCHES; 2008: 25-37).
A corrente destes
investigadores defendia a ideia de que o estilo se definia apenas por aspectos
manipuláveis, como as características externas da cerâmica, tais como a
decoração. Os padrões tecnológicos corresponderiam a pressões exclusivamente
ambientais, como a disponibilidade de argila de melhor ou pior qualidade,
umidade do clima ou facilidade na obtenção de combustível para a queima. Um
debate que promoveu outras visões da cerâmica como indicador cultural surgiu
ainda dentro da Arqueologia Processualista, outras correntes levaram esta
questão a um plano mais completo, em que todos os passos da manufatura formam
parte do estilo.
A ênfase às
características estilísticas da cerâmica, com o objetivo de extrair padrões
culturais e identitários demarcadores dos limites das tradições com o fim
último de explicar as culturas e seus sistemas sociais, começou a ser
discutida. Os autores consideraram o conceito operativo de “opção tecnológica”
em que qualquer pessoa ao realizar uma ação técnica tem em si uma série de
possibilidades e, de modo consciente ou inconsciente, toma a decisão de usar
uma destas.
Uma opção tecnológica
para escolher, significa ter várias alternativas para usar, e os investigadores
deveriam questionar por que escolher um material e não outro, e quais são as
similitudes e diferenças entre eles. Por exemplo, a argila pura se contrai
quando perde água e racha, cada grupo usa técnicas próprias para evitar a
quebra durante a queima misturando no barro matéria antiplástica (areia, cinza,
palha, cerâmica moída, etc). Em geral, a escolha do antiplástico depende mais
da tradição cultural que da disponibilidade de materiais.
Os aspectos
tecnológicos da olaria são significativos e imprescindíveis para definir
padrões vinculados a pautas culturais, pois estes refletem decisões que se
aprendem através de seus próprios sistemas sociais e, portanto, podem refletir
de modo mais real as decisões culturais tomadas pelos artesãos criadores da
cerâmica. A tecnologia da cerâmica não é dada pelo ambiente, mas uma decisão
formatada pela cultura, tal qual a decoração. A prática oleira ou a tradição
cerâmica se relaciona com a identidade do grupo social, por representar uma
seleção deliberada de matérias primas tradicionais.
A maioria dos
mais interessantes e frutíferos casos estudados pelos pós-processualistas saiu
da Arqueologia histórica, na qual há muita documentação e muita informação etnohistórica
útil para traçarem-se questões sobre as mentalidades (FERNÁNDEZ; 2010).
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