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MÉTODOS EM ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM

PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO

Na Arqueologia da Paisagem, a análise se inicia na própria descoberta do sítio arqueológico, onde as geotecnologias são empregadas na procura de uma ocupação e no decorrer das pesquisas nelas desenvolvidas. Ao se encontrar e delimitar a área de estudo, temos os artefatos arqueológicos, o solo e o ambiente antropizado.
A metodologia da Arqueologia da paisagem considera os artefatos arqueológicos encontrados em seu contexto ambiental, usando os geoindicadores arqueológicos, para fornecer uma série de informações e de evidências sobre as ocupações humanas. Suas características podem ser examinadas em termos de "lógica social" ou homogeneização do espaço cultural que fornecem informações sobre estruturas, como sistemas de medição, posse da terra, hierarquia social, cosmologia, calendário, astronomia, geografia sagrada, cognição e práticas rituais. (ERICKSON; 2017).
A Arqueologia da paisagem tem como estratégia de pesquisa a mínima intervenção no registro arqueológico, na tentativa de inferir sobre o modo de ocupação das populações que habitaram o território onde se insere o sítio arqueológico, analisando, além de artefatos, os vestígios e intervenções encontrados no entorno do sítio. A tentativa de preservação do patrimônio arqueológico in situ ou de mínima intervenção, provém de um histórico de escavações que observava apenas os aspectos estéticos dos objetos ou estruturas e, em um segundo momento, a prática da escavação exaustiva, esgotando ao máximo o estudo do sítio arqueológico.
Na Arqueologia da paisagem, a pesquisa inerente a um sítio arqueológico é feita em uma perspectiva diacrônica, espacial e global diferentemente do positivismo e do estruturalismo, que promovem uma visão sincrônica, redutora e singularista (GIREL; 2006: 249-264). Pessoas de diversas comunidades culturais podem compartilhar espaços no entorno físico, cada um obtendo valores úteis, embora opostos, dos lugares que eles percebem e aos que dão significado (ANSCHUETZ et alii, 2001:185-186). As abordagens anteriores, em quase totalidade, não contemplavam a possibilidade desse múltiplo uso simultânio do espaço. Se objetos de culturas diferentes apareciam num mesmo lugar, supunha-se uma sucessão, ou por migração, ou por conflito. Dois povos não poderiam dividir o mesmo santuário ou o mesmo cemitério pacificamente, já que, para as correntes historico-culturalista e processualista a natureza do homem é necessariamente competitiva e os recursos são necessariamente escassos, refletindo a realidade da sociedade capitalista onde estas escolas surgiram.
Um enfoque paisagístico reconhece os múltiplos níveis dos cenários da ação e da ocupação humana, cada grupo situado em um assentamento concreto imbui esse espaço de suas próprias sensações espaço-temporais, com independência das intenções, frequência ou intensidade de uso. É preciso considerar que as paisagens incorporam, de forma concorrente, aspectos de mito, história e atualidade, elas têm esse potencial de simultaneidade. A temporalidade e a historicidade se mesclam na experiência de quem cria ordem em suas comunidades e reproduz a sociedade; as ações humanas e os acontecimentos não são ocorrências isoladas.
A Arqueologia da Paisagem busca incluir a prática arqueológica em coordenadas espaciais e pensar a cultura material a partir de uma matriz espacial. Isto é possível por ser a paisagem concebida como espaço socialmente construído, criado pela objetivação sobre o meio e em termos espaciais da ação social manifesta nas práticas sociais e em seus produtos ou efeitos tendo, simultaneamente, um componente material e imaginário. Assim se explicaria porque o sítio rupestre fica longe do sítio de habitação, pois deve-se levar em conta a imaginação dos seus realizadores. O próprio desafio de se atingir o topo de um paredão tinha um significado intrínseco, como para nós, subir ao pico de uma montanha mesmo sem um objetivo prático. Não só, a oficina de lascamento poderia se situar em um lugar onde se pudesse manter o processo em segredo, sendo praticado apenas por iniciados. Há, até hoje, nas sociedades tradicionais, atividades que não podem ser vistas por mulheres, por párias, por crianças, por profanos em geral. Seria então preciso se afastar do núcleo de habitação para praticá-las. Ou, ao contrário, seria preciso realizar uma atividade coletivamente, juntando os habitantes de várias aldeias e, para isso, seria preciso encontrar um lugar amplo. Finalmente, a estética não pode ser desprezada. Um casal de namorados sempre preferirá um ambiente agradável para estar junto, uma bonita cachoeira atrairá visitantes, uma bela vista justificará uma escalada.
A pesquisa arqueológica das escolas anteriores se concentrou em “sítios” como um meio de investigação, em contrapartida, a Arqueologia da Paisagem dá ênfase ao espaço entre os sítios ou “pontos” na paisagem. A maioria das tentativas anteriores de estudos arqueológicos do ambiente tendia a se concentrar no ambiente natural e sua relação com os sítios de ocupação, a investigação regional tende a realçar o padrão humano e o sistema cultural de assentamento, conforme determinado através do estudo da interrelação entre os sítios arqueológicos. A Arqueologia da Paisagem europeia tem como foco o estudo sistemático dos sítios arqueológicos, preferindo uma ação não destrutiva representada por esses “levantamentos de área”. São feitas intensivas pesquisas de identificação da distribuição de sítios em uma região com aporte das geotecnologias.
Temos de reconhecer que os sítios arqueológicos não têm todos o mesmo valor e uso. Uma região pode ser centralizada por uma cidade tendo várias aldeias em volta, cada aldeia em particular não dá a dimensão da dinâmica social dessa sociedade. Os estruturalistas já tinham percebido que, num sítio, há áreas dedicadas à diversas atividades. Em um lugar se praticava a desossa dos animais, em outra área se cozinhava, em outra se faziam as ferramentas. O mesmo raciocínio deve ser extrapolado para a paisagem em si, é preciso reconhecer que há sítios especializados distribuidos pela paisagem. O Processualismo dá especial atenção aos sítios de “oficinas líticas” onde as pessoas iam preparar seus implementos sem formarem um núcleo habitacional. Os processualistas atribuiam isso à proximidade dos implementos, ou seja, os homens lascariam rochas perto das pedreiras e poliriam seus machados próximo à fontes de água, pois esta é necessaria no processo de polir. A diferenciação dos sítios e sua especialização estaria, portanto, ligada à problemas práticos. Observa-se com frequência, porém, que os sítios de pinturas rupestres está afastado de áreas de moradia, muitas vezes em áreas de difícil acesso. O Processualismo nunca conseguiu explicar o que levava os seres humanos a praticarem sua “arte” em tais lugares, pois seria muito mais prático o fazerem próximos das fontes de tintas ou dos lugares onde moravam.
Imprescindível à pesquisa arqueológica é a compreensão do entorno dos sítios, da paisagem onde se inserem os assentamentos pré-históricos, vista em uma perspectiva natural, na sua materialidade, em sua condição simbólica interpretada e representada pelos grupos que a ocuparam, fazendo parte de sua sociedade. Há uma preocupação entre os pesquisadores com o uso desses métodos e técnicas para se identificarem os sítios arqueológicos, geoindicadores ou marcos paisagísticos dispostos na paisagem e interligados a ela, assim como o desenvolvimento de estudos sistemáticos e integrais do registro arqueológico e da paisagem, de forma a permitir a compreensão da distribuição espacial e relacional dos assentamentos, ocorrências, locais de interesse arqueológico e os possíveis usos do espaço por populações pregressas numa estratégia de investigação, identificação e compreensão do registro arqueológico com vistas à reconstrução de paisagens arqueológicas e os processos de continuidade e mudança constituintes da paisagem atual.
Por meio das análises, os arqueólogos precisam classificar as diferenças internas dentro de suas unidades analíticas, examinar as diferenças espaciais entre essas unidades e identificar os fatores de cálculo responsáveis por algumas das variações observadas. Mediante o reconhecimento dos padrões e das análises estatísticas, analisam-se as possíveis correspondências entre as unidades analíticas e, por último, as dos segmentos arqueológicos e de paisagem física. Neste processo, dever-se-iam definir alguns dos parâmetros físicos e culturais determinantes das construções da paisagem dentro de um espaço geográfico concreto, e identificar e calcular as pautas visíveis entre os segmentos arqueológicos e a paisagem física.
Ao documentar e calcular as diferenças dentro e entre as unidades analíticas arqueológicas, os investigadores podem descrever e avaliar a paisagem arqueológica. Ao distinguir entre componentes intrassítio (onsite) e extrassítio (offsite)  do registro arqueológico, poder-se-ia discernir entre áreas de uso intensivo da terra e outras de uso no intensivo, com as primeiras como representação de espaços ocupados e as segundas como espaços de atividade. Mediante o estudo das distribuições espaciais e das interrelações entre restos arqueológicos isolados, conjuntos arqueológicos combinados e o espaço aberto no material, poder-se-iam identificar aspectos da estrutura da paisagem arqueológica. Incluídas nas paisagens arqueológicas estão espaços de ação dentro dos quais as pessoas centram suas interações econômicas, sociais e conceituais com seus entornos, espaços de busca, nos quais as pessoas interatuam para satisfazer necessidades concretas, e espaços de consciência, com os quais os grupos mantêm um mínimo nível de conhecimento, mesmo se nunca chega a visitar os lugares pessoalmente.


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