O MUSEU E A
ARQUEOLOGIA
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
A curatela
arqueológica é um processo contínuo, estudado e gerido pela Museologia. Envolve
a criação de coleções e seus cuidados e gestão a longo prazo, também envolve a
sua acessibilidade a uma variedade de usuários para uma série de empregos.
O primeiro
museu arqueológico moderno foi o Museu dos Monumentos, criado na França depois
da Revolução francesa que serviu de modelo para outros no séc. XIX na Europa. Christian
J. Thomsen ao dispor a coleção do Museu Nacional de Antiguidades de Copenhague
criou o primeiro método de seriação de objetos arqueológicos permitindo uma
datação relativa dos artefatos (TRIGGER; 2004:73). No fim do séc. XIX já havia
muito material arqueológico nos museus, isto levou a criação de novos métodos
de classificação.
A
proliferação de museus no século XIX foi ligada à formação e solidificação dos
estados nacionais na Europa Ocidental. A posse de artefatos de outras culturas
era uma importante demonstração de força, pois tais artefatos eram sinais da
eficiência em obtê-los e reuni-los além das fronteiras nacionais. Eles eram
reivindicações da habilidade de conhecer e governar; sinais também, para os
visitantes, de que a sua era uma nação presente no cenário global (MACDONALD;
2003:1-3).
Os museus, no
séc. XIX, eram capazes de articular duas narrativas temporais: uma trajetória
nacional distinta e a nação como etapa triunfante final de uma progressão
sucessiva. Que os museus pudessem apresentar ambos através de artefatos
específicos e as sequências em que estavam dispostos, fazia parte da sua magia
tecnológica (MACDONALD; 2003:1-3).
Nos museus, a
“visão objetiva” era dirigida a representações de “mundos” compartimentados ou
a representações da “diferença”, e essa maneira de ver também ajudava a
“objetivar” as identidades nacionais e as diferenças culturais, raciais e de
gênero. Isso ajudou a constituir tais esquemas como fatos. As técnicas de
arranjo do museu foram consideradas como reflexos de verdades subjacentes, supostamente
inerentes aos “fatos” apresentados pelos artefatos expostos. Os museus públicos
eram envolvidos na tentativa de educar o público e encorajar as pessoas a
imaginar e experimentar-se como membros de um Estado nacional ordenado, porém,
sentido. Eles convidavam as pessoas a conceituar um senso de diferença nacional
ou racial e a experimentar seus próprios mundos como relativamente e
tranquilamente governados. Eles ajudavam a pensar as identidades como limitadas
e coerentes (MACDONALD; 2003:4-5).
Na exposição
museológica o artefato neutro, asséptico, era uma ilusão, pelas múltiplas
malhas de mediações internas e externas que o envolvem no museu: desde os
processos, sistemas e motivos de seleção (na coleta, nos diversos usos),
passando pelas classificações, arranjos, combinações e disposições que tecem a
exposição, até o caldo de cultura, as expectativas e valores dos visitantes e
os referenciais dos meios de comunicação de massa, a doxa e os critérios
epistemológicos na moda, sem esquecer aqueles das instituições atuantes na área
(MENESES; 1998:89-104). Muitas coleções arqueológicas não tinham informações
sobre os contextos de onde os vestígios foram encontrados e os métodos de
escavação usados.
Sob a
influência do Processualismo, Diz a Carta de Nova Délhi (1956) que sendo a
Arqueologia (na visão da Nova Arqueologia) uma ciência comparativa, dever-se-ia
considerar, na criação e coordenação dos museus e das coleções procedentes de
pesquisas, o mister de facilitar o trabalho de comparação. Para isso, seria
desejável haver coleções centrais em lugar de regionais ou locais, o que seria
melhor do que coleções dispersas e com acesso restrito. Por outro lado,
pressionados pelo nacionalismo vigente na época, o mesmo documento diz que o
produto das pesquisas deveria se destinar à constituição nos museus do país em
que são feitas, de coleções completas representativas da civilização da
História e da arte deste país.
Grupos éticos
reivindicaram e assumiram, nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, a
coordenação e a gestão integral de museus antropológicos (agora chamados de
museus “étnicos”), para assegurarem a preservação de uma autoimagem, no
deslocamento provocado pela exposição pública do valor de uso para o valor
cognitivo, possível de ser extraído de restos funerários e de objetos
(inclusive os pessoais), focos de disputa sobre o “direito à História”
(MENESES; 1998:89-104).
Modernamente
prefere-se criar museus regionais e locais, o mais próximo possível do sítio de
escavação, pois se entende ser o bem arqueológico um patrimônio cultural do
povo, e não apenas um objeto de pesquisa. É necessário romper com a ideia de
exposições esporádicas, fora de contexto e inacessíveis ao público. O retorno
do material arqueológico, sendo possível, deverá priorizar a localidade ou
município no qual ele foi pesquisado, em formas compreensíveis de leitura pela
maioria da população (BASTOS, SOUZA, GALO; 2005:182).
O
desenvolvimento da Arqueologia preventiva produziu quantidades consideráveis de
objetos e materiais (DUVAL, 2017). Museus do mundo inteiro intensificaram suas
discussões com relação ao destino e à disposição dos acervos acumulados nas reservas
técnicas, motivados por seu crescente volume, pois materiais de diversas
categorias provenientes de pesquisas arqueológicas de campo chegam
regularmente, passam por um processo de tratamento, identificação, análise, e
são armazenados na reserva técnica, onde permanecem à disposição para o uso em
pesquisa, ensino e ações de extroversão museológica. Em decorrência deste
acúmulo, os museus discutem normas sobre métodos de coleta, possibilidade de
descarte e “planejamento por meio da definição de uma política de acervo,
traçada a partir do próprio estudo das coleções e das questões científicos
inspirados pelas mesmas” (AFONSO, BOTTALLO, PIEDADE, MORAIS; 1997:199).
No Brasil, as
normas legais colocam as instituições museais como agentes passivos nos processos
de tramitação para a pesquisa e guarda de acervos arqueólogos. Esta condição
afigura um ônus permanente relacionado à salvaguarda, à manutenção e à
publicidade dos acervos arqueólogos (COSTA; 2007:131).
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