Pular para o conteúdo principal

O Pós-Processualismo

Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro

Na década de 1960, houve uma crítica aos pressupostos neo-evolucionistas do processualismo, o qual levava a um afrouxamento da metodologia em nome da extrapolação. O processualismo começa a ser questionado, junto com o estruturalismo e o materialismo cultural. Renfrew usou a teoria matemática da catástrofe para explicar as mudanças no registro arqueológico. Esta teoria mostra como uma série de variáveis flutuantes podem produzir efeitos descontínuos (RENFREW; KENNETH, 1979). As circunstâncias naturais passam a serem vistas como condicionantes, mas não determinantes da situação social.
Novas abordagens defendem uma visão centrada no ser humano e não nos fenômenos sociais. Há uma forte influência da análise do discurso sobre a Arqueologia, a teoria pós-processualista tem assimilado a paisagem a um texto Rituais e monumentos funerários passam a ser encarados como “discursos” (ZARANKIN; 2007:12). Por meio de “discursos materiais”, os indivíduos falam sobre si mesmos, sobre sua visão de mundo, sobre seus tabus. Como a linguagem, a cultura material passa a ser vista como um sistema estruturado de signos, de modo que ela pode ser considerada como um texto. Em tal analogia, os “textos” materiais devem ser lidos e sua sintaxe desvendada. Cada pessoa lê os textos de maneira diferente, assim também a cultura material está aberta a múltiplas interpretações. (LIMA, 2011:11-23).
Para os arqueólogos processualistas, o objetivo da Arqueologia era explicar o registro arqueológico. Os pós-processualistas afirmaram que o objetivo da Arqueologia é a relação entre comportamento humano e a cultura material em todos os tempos e lugares, que os processualistas restringiam à Arqueologia histórica (TRIGGER; 2004:360-1). Já para o pós-processualismo, a cultura material não tem significados inerentes, pois os artefatos não falam por si mesmos, mas os arqueólogos lhes conferem o significado. Não há “reconstruções”, mas construções do passado influenciadas por agendas políticas contemporâneas. Na transmissão e reprodução do significado cultural, os símbolos são agentes ativos. Eles ordenam a vida social, recriando-a de modo continuo, esta é uma dimensão da cultura material a não poder ser ignorada. Esses significados derivam da sua produção, do seu uso e da sua percepção pelos outros; são fluidos, variam de acordo com contextos particulares.
Para Gaspar Neto (2006:17), a oposição aos ideais positivistas de ciência e à separação entre teor e dados é inerente ao pós-processualismo, pois a interpretação arqueológica seria hermenêutica, dando-se maior ênfase aos sentidos dos objetos. Há uma oposição à dicotomia entre dimensão material e ideal, buscando-se valores e pensamentos do passado através dos objetos. A cultura material é encarada como um texto admitindo diferentes interpretações, por isso, dá-se prioridade ao contexto. Ganha maior relevância a ação individual, colocando por terra a ideia processualista de ser o indivíduo um mero agente passivo do entorno social. Assim, o pós-processualismo contesta a pretensão positivista da neutralidade científica. Há o reconhecimento de não haver um caráter científico no trabalho arqueológico e os significados produzidos por seus profissionais se situam dentro de um contexto político. Seguindo estas premissas, aparecem inúmeras correntes, algumas complementares, algumas contraditórias entre si.
Nem todos os postulados indicados pelo autor são adotados por todas as correntes pós-processualistas. Principalmente a questão de abandonar qualquer pretensão científica não é abraçada por todas as correntes. O marxismo, por exemplo, por ter uma visão de ciência diferente da visão positivista, continua dando bases para uma ciência arqueológica para os seus adeptos.
Dentro do mundo latino-americano se desenvolveu uma aplicação dos princípios marxistas ao estudo denominado "Arqueologia social latino-americana". Constitui uma tendência singular pelas questões levantadas e também pelo compromisso social implicado pela sua opção, dadas as particulares circunstâncias sociais daquela situação. As especiais características do mundo latino-americano, com uma população indígena sem aceso ao poder e cujos antepassados construíram os monumentos e estruturas que agora constituem o objeto de estudo do arqueólogo, dota o mundo latino-americano de algumas especiais condições de conflito que afetam até o próprio trabalho do investigador, o qual pode converter-se em instrumento de luta.
Ainda no campo do marxismo, abandonando qualquer do chamado “materialismo vulgar” e qualquer ponto de conexão com a Nova Arqueologia e a Arqueologia Processual, está a Arqueologia Contextual liderada pelo britânico E. Hodder, porém o termo acolhe também a outros enfoques divididos em duas tendências: os enfoques marxistas da Teoria Crítica e o “neomarxismo” e as abordagens estruturalistas da Arqueologia Estrutural, a Arqueologia Cognitiva e a Arqueologia Contextual, assim como a Arqueologia Interpretativa (GONZALO, 2017:19-26). A Arqueologia Contextual pós-processualista rejeitou a validade da distinção entre o específico e o genérico, realçando o interesse por cosmologias, tradições astronômicas, estilos de arte e crenças religiosas deixados de lado pelo processualismo (TRIGGER; 2004:340).
Por sua vez, no campo teórico do neopositivismo, incorporando contribuições do historicoculturalismo e do processualismo, a Arqueologia Selecionista foi construída assumindo, como suas questões centrais, a variação, a hereditariedade e a seleção, entendendo que a evolução pode ocorrer como resultado de seleção natural, de transformações de natureza adaptativa; de deriva genética, no caso, mudanças aleatórias na frequência de traços resultantes dos caprichos da transmissão; ou de ambos.
Se evolução e adaptação constituem o cerne da Arqueologia darwiniana e igual ocorre no processualismo, poderia ser cogitada uma identidade programática entre ambos. São questões abordadas de forma diferente na Antropologia e na Biologia Evolutiva. Se o evolucionismo cultural entendeu evolução como progresso, a teoria darwiniana a concebe como processo de transformação, como qualquer mudança direcional ou qualquer mudança cumulativa nas características dos organismos ou populações por muitas gerações, incluindo a origem e a dispersão de traços. As características extrassomáticas estariam tão sujeitas aos processos evolutivos quanto as somáticas. Quando os artefatos são colocados na ordem cronológica adequada ficaria demonstrado que eles compõem uma linhagem histórica, a teoria evolutiva é, para os darwinianos, aquela que melhor explana o motivo de eles assumirem certa forma. Nessa ordenação, o conhecido método de seriação se revestiu de um interesse especial e vem sendo explorado por eles. Linhagens de artefatos estariam relacionadas às linhagens de seres humanos responsáveis pela sua produção, e a teoria evolutiva volta-se para a sua reconstrução e para a explanação das razões pelas quais elas assumiram certas formas, sendo entendida como a ferramenta mais adequada para esta finalidade(LIMA; 2011:11-23).
Os pós-processualismos são vários, como se vê. Nenhum deles chegou ainda a ocupar o papel paradigmático que teve a Nova Arqueologia. Hoje, os trabalhos são teoricamente ecléticos, raramente se esforçando para atingir uma ortodoxia que atinja todo o corpo da disciplina. Pode-se dizer que a crise dos paradigmas que atingiu as ciências humanas no fim do século XX ainda não foi devidamente resolvido pelos arqueólogos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ARTEFATO ARQUEOLÓGICO: QUESTÕES DE CONTATOS E IDENTIDADES PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO O artefato arqueológico tem uma dupla natureza, ele é o testemunho de uma ação passada, sua produção e uso; e é também portador de uma atividade futura, seu estudo. É o documento da História e é a ilustração da teoria desenvolvida pelos arqueólogos. Assim, o artefato deve ser considerado sob dois aspectos: primeiro, pelo seu significado para a população que o produziu e, segundo, pelo seu significado atual, museológico e científico. O objeto arqueológico foi um objeto cultural e tecnológico no passado, mas também é um objeto cultural e patrimonial no presente. O objeto arqueológico é também um mediador na tomada de consciência pública sobre o patrimônio na demonstração, na restituição do conhecimento adquirido e nos questionamentos. Já a coleção é uma construção unicamente do presente. Ela é criada através do olhar classificatório da Arqueologia de hoje sobre os materiais do passa...

NOTAS

A cultura arqueológica está para a cultura histórica assim como a espécie paleontológica está para a espécie viva. Não saberíamos a diferença entre uma ovelha e uma cabra somente pelo esqueleto. Civilização não é um conceito arqueológico. Uma civilização é uma cultura que desenvolveu cidades e escrita, por ter escrita, ela fala por si mesma. Agricultura é diferente de horticultura.
DESENVOLVIMENTO DA ARQUEOLOGIA HISTÓRICA PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO A Arqueologia Histórica, como a Arqueologia da cultura europeia transplantada para as Américas, nasceu, muito antes do seu nome, nos Estados Unidos e Canadá por volta de 1850. Primeiramente preocupada com a busca de pessoas e lugares famosos para a História nacional e oficial, esta Arqueologia vai ser praticada quase exclusivamente por arquitetos e historiadores. Os primeiros trabalhos em sítios históricos no Brasil remontam às décadas de 1930 a 1950, quando foram feitas investigações sem caráter sistemático ou corpus teórico e metodológico definido. Como primeiros exemplos dessas investigações temos, na década de 1930, os trabalhos de Hermann Kruse nas Casas Fortes na Bahia, e de Loureiro Fernandes nos túmulos de quilombolas no Paraná. Em 1940, Virginia Watson realizou investigações nas ruínas de uma vila espanhola no Paraná chamada Ciudad Real del Guairá. Já em 1950, Loureiro Fernandes estudou o ...