O Processualismo
O enfoque
histórico-cultural mostrou-se incapaz de explicar como as culturas funcionavam.
Autores como Gordon Childe passaram a negar que o conceito de etnicidade fosse
central nos estudos arqueológicos. Adotou-se um novo enfoque para o estudo da
Pré-História, baseada na compreensão sistêmica do comportamento humano. Tal
enfoque foi estimulado pelo princípio ecológico da Arqueologia escandinava,
pelo exemplo da Arqueologia soviética e pela rejeição do difusionismo por parte
dos etnólogos ocidentais.
Os
arqueólogos passam a defender a ideia da mudança cultural como endógena,
considerando que esta só se produzirá se resultar adaptativa e benéfica para o
sistema e se cumprir uma função positiva que contribua para aumentar sua
coerência e estabilidade. Pela ideia de que a função predomina sobre a forma e
o processo sobre o resultado se denominam "funcionalistas" ou
“processualistas”.
O
funcionalismo refletia a Antropologia de Malinowski e Radcliffe-Brown, que
sustentavam que o comportamento humano está em relação com os sistemas sociais
concebidos como compostos de elementos interdependentes.
No
funcionalismo há um interesse pelo modo como os artefatos eram manufaturados e
pelo uso que lhe fora dado. Os artefatos são descritos e analisados com base em
uma série de características funcionais, seus tipos são observados do ponto de
vista estruturalista como um conjunto de traços, porém, em vez de concentrar-se
nos artefatos, o foco de interesse dirigiu-se para formas características,
padrões de habitação e plantas de aldeamentos, assumindo a distribuição dos
artefatos um novo significado. O estudo do artefato deixa de ser um fim em si
mesmo, busca-se, a partir deles, reconstruir o modo de vida dos seus usuários.
Isso aproximou a Arqueologia da Etnologia (TRIGGER; 2004:262-5).
Metodologicamente,
a escola de Binford sustenta que o desafio da interpretação arqueológica é
compreender o material “distorcido” como uma parte significativa do registro
arqueológico. Os arqueólogos não podem purgar o registro arqueológico dos
processos deletérios que condicionam a sua formação e não podem reconstruir o
sistema cultural em sua inteireza. Muitos processos culturais são tão complexos
que a eliminação das influências geradoras de distorção não é capaz de produzir
uma interpretação completa do registro arqueológico À medida que a crença no
neoevolucionismo diminui e a diversidade do comportamento humano é aceita, essa
limitação tende a ser reconhecida como inerente aos dados e não como uma
fraqueza metodológica (TRIGGER; 2004:351).
Depois da
Segunda Guerra Mundial, nasce nos EUA o neo-evolucionismo, que propunha que os
humanos sempre tentavam preservar um estilo de vida familiar, a menos que uma
mudança lhes fosse imposta pelas circunstâncias. Os arqueólogos propuseram
“leis” para a evolução social, no geral, embora não pudessem ser usadas para
inferir traços peculiares. A teoria sugeria que qualquer arqueólogo apto a
reconstruir a tecnologia e o ambiente de uma cultura pré-histórica deveria ser
capaz de determinar quais seriam as característica básica do resto dessa
cultura (TRIGGER; 2004:281-3).
Neste
contexto, inspirada na Nova Geografia, nasce a Nova Arqueologia. Ambas
postulavam um rigor científico que deveria começar pela explicitação da teoria
e do método.
Em 1959,
Joseph Caldwell publicou na revista Science
um artigo em que indicou as principais tendências a que ele deu o nome de Nova
Arqueologia: a importância da Ecologia e dos padrões de assentamento, a visão
da cultura arqueológica como um sistema integrado e a redutibilidade das
situações históricas a um número finito de processos gerais. O objetivo básico
dos arqueólogos deveria ser explicar as mudanças das culturas arqueológicas em
termos de processo cultural. Os processualistas se viam como rompendo com os
funcionalistas a quem chamavam “arqueólogos tradicionais” (CALDWELL, 1959:303-ss).
A Nova
Arqueologia se divulgou no início nos anos 60 nos EUA, sendo seu expoente Lewis
R. Binford. Dizia ela que, para se compreender o passado, não é suficiente
desenterrar artefatos de eras passada e escrever uma História intuitiva baseada
nas impressões subjetivas dela. A preocupação da Arqueologia deveria ser o
estudo do processo de cultura e suas modificações. A Arqueologia teria que
questionar com consistência qual é a explicação para todas as diferenças, toda
a variação que vemos no registro arqueológico A Nova Arqueologia orienta-se em
direção a um esforço para desenvolvermos argumentos sólidos que permitam
interpretar os dados relativos aos aspectos sociais, ao regime alimentar, à
tecnologia etc.
A Nova
Arqueologia negava que os motivos da mudança cultural fossem internos ao
sistema ou que as mudanças poderiam ser atribuídas à vontade humana, porém não
conseguiu chegar ao motivo das mudanças sociais que eram meras reações aos
acontecimentos. O processualismo também não dava a devida importância ao
contato e à competição entre as sociedades, encarando cada grupo como uma
realidade isolada tentando se adaptar ao ambiente (TRIGGER; 2004:322).
A maioria dos
investigadores processuais usa a Teoria Geral de Sistemas como base de muitas
de suas explicações, como revela o seu vocabulário. Termos como “sistema”,
“parâmetros do sistema”, “trajetória”, “retroalimentação positiva ou negativa”,
“fluxo de energia, de informação”, “entropia”, “homeostase”, “morfogênese”
etc., constituem boa parte do léxico de suas publicações, enquanto a unidade
política ou a região e sua população são vistos como sistemas em que a mudança
se produz como uma resposta homeostática ao câmbio exógeno ou endógeno. Ou em
outras palavras, toda sociedade tenderia a permanecer em equilíbrio até que uma
perturbação externa, como uma mudança climática, a obrigasse a mudar.
Um grupo que
caçava mamutes, por exemplo, teve de se modificar quando estes se extinguiram,
e teve que passar a caçar bisões. Este câmbio exógeno (de fora) gerou uma
mudança interna, pois as lanças tiveram de ser modificadas, os campos de caça
se deslocaram, a forma de conservar o alimento mudou. Se houvesse, por exemplo,
um sacerdote que invocasse o espírito dos mamutes, ele teria perdido sua
função. Talvez surgisse um novo xamã para invocar o espírito do bisão, ou então
fosse considerado desnecessário apelar para a magia para se caçar este animal.
Isso geraria uma “retroalimentação” ocasionando novas mudanças agora endógenas:
novas lanças exigiriam outros tipos de madeira para serem feitas, isto exigiria
que se fosse a novas regiões, etc.
Como
Arqueologia deveria ser uma fonte de conhecimento que permitisse reconstituir a
História de povos que não deixam traços por meio de escrita (CARVALHO;
2003:17), a Arqueologia histórica praticamente não interessa à Nova
Arqueologia. Esta teoria também atribuía à Arqueologia o papel de explicar o
espectro de semelhanças e diferenças no comportamento cultural em termos de
longa duração (TRIGGER; 2004:287). Isto implica que períodos “curtos” de tempo,
como de anos ou mesmo séculos, estudados pela História não teriam interesse para
o arqueólogo. Fatos isolados, como batalhas e sucessões reais, só teriam
importância se ajudassem a constituir um quadro mais amplo de como as
sociedades funcionam.
A Nova
Arqueologia acreditava que necessitava de grande quantidade de dados, provindos
de diferentes sociedades, para criar uma teoria geral da mudança social. Sendo
a Arqueologia uma ciência comparativa, dever-se-ia considerar, na criação e
organização de museus e das coleções procedentes da pesquisa, o imperativo de
facilitar o trabalho de comparação (CARTA DE NOVA DELHI; 2005:69). Há mais
diversidade nas culturas pré-históricas do que se pode explicar por esquemas
evolucionistas gerais. Sociedades atuais com mesmo modo de produção e
consideradas em igual estágio de desenvolvimento são diferentes quanto à sua
forma de se organizar. Alguns comportamentos podem não ser assinalados pelo
registro arqueológico Abandonou-se a ideia de que as sociedades ou culturas são
unidades cerradas possíveis de serem estudadas de modo independente umas das outras.
A difusão só tem possibilidade de ser entendida em termos sistêmicos em um
contexto político e econômico mais amplo (TRIGGER; 2004:320-8).
No Brasil,
depois de um início abortado no séc. XIX com Peter Wilhelm Lund, precisou-se
esperar até a segunda metade do séc. XX para que a Arqueologia se implantasse
no país, dentro do pensamento funcionalista e sob a orientação de pesquisadores
franceses e norte-americanos. No final dos anos 1960, surge o Projeto Nacional
de Pesquisa arqueológica (PRONAPA), orientado por Betty Meggers e Clifford
Evans, que procurou montar um quadro preliminar da Pré-História dos estados do
litoral, a partir de prospecções e sondagens rápidas. Desse trabalho nasceram
as principais tradições ceramistas até hoje reconhecidas. Os seguidores do
PRONAPA procuravam, por meio de análise dos restos cerâmicos, evidências da
dispersão, ao longo dos eixos fluviais, de grupos pré-históricos distinguidos
por sua cultura material. Trabalhavam, dentro da linha do determinismo
ecológico norte-americano, com a ideia de que o ambiente determina o grau de
complexidade das sociedades que nele evoluíram. Outra pesquisa, de linha
francesa, estudava os vestígios de populações antigas a partir de escavações em
sítios escolhidos e davam atenção à arte rupestre. A partir de 1980 houve uma
abertura para novas influências, em particular as vindas da Arqueologia
processual anglo-saxônica, que pretendia ter alcançando maior cientificidade na
Arqueologia procurando leis permanentes que regessem as sociedade e suas relações
com o meio (PROUS; 2006:12).
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