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PARADIGMAS TEÓRICOS EM ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM

PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO 

Para construir uma Arqueologia das paisagens, os arqueólogos devem começar por definir os parâmetros naturais e culturais que condicionam como as pessoas ocupam os lugares concretos e como estabelecem suas ações no tempo e no espaço. Ao definir estes parâmetros, pode-se entender melhor a estrutura e a disposição do agir humano dentro de suas entornos. A definição de parâmetros leva quatro passos hierárquicos: a definição dos segmentos arqueológicos e de paisagem física que centram o estudo; a identificação das conexões entre estes segmentos; o estabelecimento de suas intersecções, e a definição da paisagem por meio da integração destas intersecções.
O desenvolvimento de estudos sistemáticos e integrais do registro arqueológico e da paisagem (esta última compreendida não como uma entidade passiva, onde ocorrem os processos sociais ou como um recurso a ser explorado, mas como uma construção social), de forma a compreendermos e interpretarmos a distribuição espacial dos assentamentos, ocorrências, locais de interesse arqueológico e, os usos do espaço por populações pregressas, em uma estratégia de investigação, identificação e compreensão do registro arqueológico com vistas à reconstrução de paisagens arqueológicas e os processos de continuidade e mudança constitutivos da paisagem atual não está totalmente delineada pelas abordagens "processuais", mas faz uma releitura por meio de definições processuais e pós-processuais; justificando-se por ampliar a noção de sítios arqueológicos, pois o estudo de sítios isolados não satisfaz as premissas da pesquisa e a paisagem deve ser o foco principal da intervenção arqueológica (FAGUNDES; 2017).
A construção de uma Arqueologia da paisagem apresenta quatro questões principais. A primeira, sobre como um enfoque de paisagem contribui para a indagação arqueológica, centrando sua atenção nas fontes de variabilidade de conduta ocultadas no tempo e no espaço pela sistemática da Arqueologia tradicional; a segunda, sobre as assunções gerais por trás da validade e dos limites de nossa compreensão da Arqueologia das paisagens; a terceira, sobre como os investigadores conciliam as diferenças potenciais entre as opiniões culturais tradicionais e as análises antropológicas das paisagens, e o quarto, como se encaixa a paisagem no mais amplo desafio de fazer a Arqueologia ser viável, sem perder sua fonte de informação tradicional (ANSCHUETZ et alii; 2001:184-185).
O estudo da paisagem presume o uso de diversas categorias em diferentes áreas do conhecimento, tendo como foco a compreensão das relações entre humanos e seus ambientes. Critica-se a ecologia da paisagem por estudar a morfologia do ambiente do ponto de vista das ciências da natureza pois a paisagem existe apenas através da associação de “natural” e “social”. A paisagem corresponde ao a uma entidade espacial posta em um nível hierárquico superior ao do ecossistema, marcado por sua heterogeneidade e uma dinâmica governada em parte por ações humanas chamada de ecocomplexo (BUGGEY; 1999:250). Os ecologistas históricos adotam o tradicional interesse pela paisagem dos geógrafos: a ideia de que as paisagens ancestrais e formalmente construídas refletem os valores e crenças essenciais de um grupo (ANSCHUETZ et alii; 2001:152-197).
Não há nenhuma definição comum aceita do que os estudos de paisagem são ou devem ser. A Arqueologia não está sozinha ao enfrentar os desafios colocados pelas diferenças terminológicas e conceituais entre abordagens da paisagem. A abundância de terminologias e abordagens que suscitam preocupações com a utilidade dos conceitos paisagísticos em Arqueologia não é o resultado de um empréstimo inadequado de conceitos desenvolvido em outra disciplina (ANSCHUETZ, WILSHUSEN, SCHEICK; 2001:157-211). Os autores usam uma multiplicidade de referências sobre a paisagem para realçar os aspectos naturais ou culturais do entorno humano. A ampla variabilidade no uso arqueológico da paisagem faz aparecer, à primeira vista, a questão de se essa palavra conserva um significado para a prática arqueológica. Há-se convertido o “paisagem” em um sinônimo de “meio ambiente” ou de “padrão de assentamento”. À espera de um conceito único de paisagem, os investigadores desenvolveram esta imprecisão terminológica e esta multiplicidade de enfoques, como resultado da falta de uma base teórica unificada (ANSCHUETZ et alii; 2001:152-197).
A Arqueología da Paisagem, tendo como característica o estudo das sociedades a partir de sua espacialidade, se converteu em um cenário onde se cruzaram as duas vigas mestras teóricas da Arqueologia (Materialismo e Idealismo). Em seu seio cristalizou-se uma variedade de enfoques dispares gerando sérias imprecisões terminológicas e metodológicas. Esta aparente falta de método e campo de conhecimento próprio favoreceu que se ponha em dúvida a integridade da Arqueologia da Paisagem como uma área de conhecimento singular. embora para uma parte dos especialistas, a Arqueologia da Paisagem se filie à fenomenologia (LIMA; 2011:11-23).
A escola fenomenologica se manifesta na Arqueologia tardiamente no fim do século XX dentro do pós-processualismo. O excesso em relação a essa corrente filosófica é comum, pois quase sempre que a fenomenologia é introduzida num campo do saber, ela é tomada por muitos como sinônimo de “achismo”. A escola fenomenológica foi fundada no início do século XX pelo matemático e filósofo Husserl como uma reação ao positivismo científico. Husserl pretendia que a reflexão sobre um objeto começasse pelo olhar despreocupado. Assim, por exemplo, um estudo de um texto literário começaria pela sua leitura despreocupada; depois haveria uma segunda leitura com uma preocupação crítica e depois quantas releituras fossem necessárias para a análise. Desta maneira, a Arqueologia da paisagem deveria começar por um passeio despretensioso e prosseguir por passeios cada vez mais analíticos.
Entre outras coisas, porque a pesquisa fenomenológica frequentemente começa por um “passeio”, seja pelo texto literário, seja por uma música, seja por uma paisagem, muitos terminam acreditando que basta “passear” para conhecer o objeto de estudo. De fato, Heidegger defende que, já na primeira leitura do livro, na primeira audição da música, no primeiro passeio, já existe um tipo de conhecimento, que será aprofundado na repetição do processo. Entretanto, este conhecimento inicial não é em si todo o conhecimento, nem o mais profundo. Também a repassagem pelo objeto de estudo deve se tornar cada vez mais analítica e instrumentalizada.
Uma visão mais próxima da teoria processualista é a de paisagem integrada, em que a energia tem um papel na dinâmica ambiental e é um resultado da interação do geossistema, dos elementos, da estrutura, da dinâmica e da sua posição espaço-temporal. Assim, a preocupação do Processualismo de encontrar a racionalidade do espaço através da lei do menor esforço é preservada, o homem se deslocaria na paisagem, porém seguindo padrões lógicos de economia de energia. A paisagem integrada pode ser entendida como uma área geográfica, uma unidade espacial cuja morfologia agrega uma complexa interrelação entre litologia, estrutura, solo, flora e fauna, sob a ação constante da sociedade, podendo ser classificada pelo tipo, tamanho, tempo e grau de evolução dos sistemas ambientais (HONORATO; 2009: 131-33).
Também contribui para a incompreensão da fenomenologia, ou, como a chama o seu fundador, da “filosofia transcendental fenomenológica”, o ter em seu vocabulário termos “herméticos” tais como “subjetivismo transcendental”, “mundo-da-vida já dado”, “intersubjetividade” etc. Tais termos têm um significado muito específico, porém, muitas vezes, foram usados por charlatães e epígonos apenas por sua sonoridade para produzir textos ocos, algo que acontece hoje com a física quântica, por exemplo.

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