QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS NA PRÁTICA DA ARQUEOLOGIA
E SUAS DIMENSÕES POLÍTICAS
PROF. DR. ROBERTO DA SILVA RIBEIRO
A cultura é
uma arena de disputas e a Arqueologia é uma fonte de material na construção de
uma identidade coletiva. A pesquisa arqueológica é usada para descrever, definir
e legitimar as identidades e relacioná-las às disputas que nutrem conflitos. Um
exemplo histórico disso é a falsa interpretação que os nazistas faziam de
achados arqueológicos legítimos para tentar demontrar a suposta superioridade
ariana ou o direito da Alemanha sobre a Polônia ou a Ucrânia simplesmente pelo
fato de povos primitivos daquelas regiões usarem suásticas em suas decorações.
Ao negar suas
responsabilidades sociais, a Arqueologia pode condenar-se à irrelevância,
suscitando hostilidades desnecessárias. Povos originais de uma região tendem a
encarar o trabalho arqueológico como um “roubo” e não se pode negar que a
questão da apropriação cultural não pode ser descartada, pois os arqueólogos se
apropriam material e simbolicamente de artefatos que são de outra cultura.
Os achados
arqueológicos têm implicações para o presente, as condições sociais influenciam
não apenas as questões abordadas como também às respostas que os arqueólogos se
predispõem a considerar aceitáveis. A pesquisa arqueológica é influenciada por
múltiplos fatores, dentre eles o contexto em que os arqueólogos vivem e
trabalham.
Na sociedade
do espetáculo, encontramos as relações sociais mediadas por imagens. A
visualidade é uma dimensão a ser explorada pela Arqueologia porquanto a imagem
consiste numa produção de conhecimento, questionado ou afirmando conhecimentos
(ARAÚJO; 2007:95). A reação do público aos achados da Arqueologia é um
indicativo do imperativo de enquadrar sua História em um amplo contexto social.
Há um profundo interesse do público e de movimentos religiosos, políticos e
sociais na pesquisa arqueóloga e o esforço de diversos regimes autoritários no
sentido de controlar a interpretação de testemunhos arqueológicos (TRIGGER;
2004:3).
Houve e há
debates a respeito da finalidade última da pesquisa arqueológica. Tendências
atuais estão demonstrando a importância da Etnoarqueologia na compreensão das
dinâmicas da materialidade no presente, o estudo das sociedades contemporâneas
e de seus fluxos materiais em andamento. O desenvolvimento dela se distingue
por transcender a biografia dos objetos analisando as relações entre pessoas e
coisas e, além disso, pelo caráter político de defesa dos direitos das
populações estudadas frente ao capitalismo, mostrando-se comprometida com as
comunidades locais, com o contexto histórico e saberes tradicionais dos grupos
estudados. A Etnoarqueologia é uma Arqueologia tout court: uma Arqueologia do presente, na qual pessoas e coisas
vivem e compartilham uma série de presentes emaranhados com uma diversidade de
passados (SILVA; 2016:79),.
O principal
foco do pós-processualismo é o entender o agora estudando-se sua formação.
Destaca-se a importância da presença do presente no passado e as bases sociais
sobre as quais se edifica o discurso arqueológico, inserido em redes que
disputam algum tipo de poder (GASPAR NETO, in OLIVEIRA; 2006:11). A
interpretação da evidência arqueológica é influenciada tanto por condições
políticas, sociais e econômicas, quanto pela tendência do indivíduo e grupos a
afirmar seus interesses, apresentando objetivos egoístas como se fossem
altruístas. As interpretações do arqueólogo também são influenciadas por
preconceitos de gênero, por interesses étnicos, pelo controle político da
pesquisa e da publicação e pelo financiamento do trabalho arqueológico, assim
como por conflitos de gerações e por disputas pessoais entre os pesquisadores
(TRIGGER; 2004:369). Os arqueólogos estão comprometidos pelos usos partidários do
passado, nos quais a materialidade de vestígios arqueológicos e edifícios
históricos os fazem âncoras convenientes para reivindicações de ascendência
cultural. Os profissionais do patrimônio devem ser conscientes das formas em
que as versões concorrentes do passado são promovidas para apoiar ou desafiar
argumentos sobre os direitos ancestrais à supremacia de grupos étnicos
particulares, sistemas políticos ou visões do mundo (PERRING, VAN DER LINDE;
2009:197-213).
O interesse
na Arqueologia do Egito e da Mesopotâmia, por exemplo, quase sempre foi
relacionado às ligações destas regiões com a Bíblia (TRIGGER; 2004:100). O
Estado de Israel, desde sua fundação, promove pesquisas arqueológicas para
comprovar a habitação primitiva da região por judeus. Fundamentalistas buscam
dados materiais em aporio de sua leitura dos textos bíblicos. É intensa, na
região do Crescente Fértil, a busca de textos que possam ser comparados com a
Bíblia.
Em muitos
países, o enfoque histórico-cultural, com ênfase na Pré-História de povos
específicos, continua a ser predominante. Ela pode ser uma forma de reforçar o
orgulho étnico e o moral de nações ou grupos. A Arqueologia nacional é frequentemente
usada com esse propósito, por povos que se sentem prejudicados, ameaçados ou
privados de seus direitos por nações mais poderosas, ou então em países onde se
busca reagir ao risco de divisões internas. A Arqueologia nacionalista tende a
realçar o passado mais recente e volta sua atenção para os feitos de antigas
civilizações locais (TRIGGER; 2004:169).
Rossano
Bastos (BASTOS, in OLIVEIRA; 2004) afirma a característica política da
Arqueologia e entende que não se manifestar contra uma política constitui-se um
posicionamento político da concordância com o status quo. A omissão da Arqueologia não encontra justificativa que
possa ser aceita por quem defende a liberdade dos povos e a ampliação da
cidadania cultural. A omissão tem sido usada e praticada ao longo do tempo como
antítese da memória.
A
interpretação dos dados pelos arqueólogos é também influenciada por crenças do
que se aprendeu a partir do registro arqueológico. Interpretações antigas são
acomodadas de forma acrítica a novas concepções em vez de serem reavaliadas.
Cientistas sociais descartam resultados que não estão de acordo com seus
pressupostos, tratando-os como exceções ou reinterpretando-os para se
conformarem à teoria. Assim, teorias racistas em voga no século XIX e XX foram
descartadas após a derrota militar da Alemanha na Segunda Guerra Mundial
(TRIGGER; 2004:12-22) não por um movimento endógeno da teoria arqueológica, mas
por causa da pressão política pelo seu abandono.
Aquilo que os
arqueólogos podem estudar é ainda influenciado pelos recursos disponíveis. Para
pesquisa, pelo contexto institucional e pelos tipos de investigação que
sociedades e governos estão dispostos a deixar que eles empreendam. Além de agradar a patrocinadores,
pode haver restrições sociais quanto à escavação de certos sítios como
cemitérios e locais sagrados (TRIGGER; 2004:16).
A melhor
prática arqueológica deve-se construir a partir de uma compreensão das
estruturas de poder sociopolítico e cultural locais e construir uma noção de
patrimônio que ultrapasse a materialista.
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