Questões de
gênero em Arqueologia
Prof. dr. Roberto da Silva Ribeiro
As relações
de gênero são diferentes entre as sociedades, pois elas se constroem
culturalmente. Uma relação ligada ao gênero é a prática sexual, a qual está
imbuída de poder e dominação (HERNÁNDEZ, RODRÍGUEZ-SHADOW; 2011, p.7-8).
Os clássicos
das ciências sociais do século XIX, como Durkheim e Engels, acreditavam que a
“divisão sexual do trabalho” tinha sido a primeira forma de organização social
humana. Em várias espécies animais que vivem em bandos, os machos e as fêmeas
têm funções diferentes. É o caso dos leões, pardais e dos chimpanzés.
Imaginava-se que esta divisão era “natural”, pois as fêmeas dos primatas que
deram origem ao homem deveriam engravidar e cuidar dos filhos, o que limitaria
sua mobilidade e o macho deveria prover
alimento e segurança. Essa ideia refletia a realidade social da Europa
do século XIX, por isso era aceita como inalterável. Por quase um século, essa
ideia vigorou sem grandes abalos.
A única ideia
que agitava a crença em uma evolução linear dos papeis de homens e mulheres era
a teoria do matriarcado. Segundo essa ideia, surgida na Era Vitoriana como uma
espécie de pesadelo masculino, o papel do homem na fecundação não era clara
para as sociedades primitivas, a mãe era a única certeza de laço de parentesco
entre as pessoas. Assim, quando as comunidades deixaram de se organizar
unicamente a partir da força bruta de um macho alfa, pensavam, as mulheres
seriam o único elo de união social. A matrilinearidade daria a elas um grande
poder social o que seria representado por um suposto culto da fertilidade da
“Grande Mãe”.
Na segunda
metade do século XX, com o avanço da segunda onda do feminismo, a ideia do
matriarcado começa a ser colocada para os arqueólogos, muitos dos quais começam
a buscar pistas disso em suas pesquisas. Supunham-se indícios de matriarcado
como armas feitas para mulheres, mulheres enterradas com armamentos, esqueletos
femininos demonstrando ferimentos típicos de caça e guerra. Algumas feministas
chegaram mesmo a propor que houvera um tempo em que as mulheres eram
fisicamente maiores que os homens. Nenhum desses indícios foi inequivocamente
encontrado. Mesmo as “estatuetas de deusas” não foram encontradas em contexto
de culto e nada mostra que elas eram algo mais que adornos ou brinquedos. A
teoria do matriarcado e do culto à deusa ficou relegado à cultura popular.
Por volta da
década de noventa do século XX, a perspectiva dos investigadores assinalava
para um aumento das “questões de mulheres” na literatura arqueológica. Esta
percepção iniciou-se na década anterior, em publicações que tiveram como ponto
de partida a inclusão de estudos específicos sobre a problemática do gênero no
objeto de estudo arqueológico, com o artigo “Archaeology and the study of gender” de Conkey e Spector. Este
"surgimento" da questão na Arqueologia foi mais tardio em comparação
ao resto das Ciências Sociais nas quais aconteceu este debate já na década de
setenta. A questão, em Arqueologia é seguir este fio a partir da seguinte
formulação: “é possível recuperar as relações de gênero de sociedades passadas
a partir do registro arqueológico?”.
A Arqueologia
de gênero busca avaliar as relações que se estabeleceram nas sociedades
pretéritas para compreender a dinâmica social. As relações de gênero são diferentes
entre as sociedades, pois elas se constroem culturalmente. Uma relação ligada
ao gênero é a prática sexual, a qual está imbuída de poder e dominação
(HERNÁNDEZ, RODRÍGUEZ-SHADOW; 2011:7-8).
Para Loredana
Ribeiro (RIBEIRO, 2016), as contribuições e aplicações das críticas feministas
à Arqueologia partem de quatro compromissos:
1) abordagem
de questões relevantes para as mulheres e pessoas oprimidas por sistemas de
desigualdade estruturados em gênero;
2)
fundamentação das pesquisas na experiência situada das mulheres e pessoas
colocadas às margens da sociedade por estruturas convencionais de sexo e
gênero;
3)
implantação de formas igualitárias e colaborativas de produção de conhecimento
que busquem eliminar dinâmicas de poder e hierarquias sociais que marcam a
ciência quando constituída como prática dominante e
4) adoção de
uma postura de reflexividade crítica e reconhecimento que todos os aspectos da
pesquisa refletem os interesses pragmáticos e situados daqueles que a criam e
sustentam.
Nos anos
noventa, iniciam-se os aportes derivados da chamada Teoria Queer em
Arqueologia. Na investigação sobre o passado, esta não opera a partir de um corpus sistemático de categorias viáveis
para explicação do passado, mas enfoca o seu planejamento a partir de uma
reflexão sobre a ocultação acadêmica das “exceções” que, através do registro
material, se encontram nas sociedades contempladas a partir do prisma normativo
da heterossexualidade. A sua crítica principal veicula a concepção ocidental de
heterossexualidade como a opção sexual normal e predominante com um viés
recorrente nos estudos sobre o passado; em uma tendência recorrente à aceitação
passiva do papel da família monógama heterossexual.
A prática de
uma Arqueologia feminista e de uma Arqueologia Queer atuam em sentido à
desconstrução das categorias de sexo e gênero, sendo então uma crítica aos
estudos que não efetuaram sua reflexão à luz do conceito de gênero. Os
arqueólogos Queer estudam como acontece a articulação da sexualidade na criação
dos papéis de gênero. A Arqueologia feminista não apenas pretende dar
visibilidade ao sexo feminino nos estudos arqueológicos, mas planeja uma nova
reconfiguração da própria análise que inclui este coletivo (BARQUER E CERDÀ,
OLIVER, GIL, ROVIRA; 2012: 188-212).
A criança e a infância também são temas quase
ignorados pela Arqueologia clássica. Um dos poucos exemplo de estudo
tradicional sobre o tema é a especificidade nos enterramentos das crianças
(PERRING, VAN DER LINDE; 2009:197-213). O tema foi levantado por pesquisadoras
mulheres a partir de 1997. A noção de infância é dada pela cultura, varia no
tempo e no espaço, sua abordagem é bastante complexa, além disso, a atenção
dada pelos arqueólogos sobre o papel das crianças nas sociedades estudadas é
escasso. Mulheres e crianças tendem a ser “invisíveis” para a Arqueologia.
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