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Questões étnicas e a Arqueologia

prof. dr. Roberto da Silva Ribeiro

A Arqueologia pós-processualista igualmente se interessa por questões de grupos etnicos minoritários. A investigação em Arqueologia a propósito da população afrodescendente nas Américas se centrou nas análises de dois cenários principais: o sistema escravista, representado em plantations, haciendas e alguns contextos urbanos, e o fenômeno da cimarronaje, efetivado na existência de palenques, quilombos, mocambos ou cumbes. As terras dos remanescentes dos quilombos são a ponta de lança para o movimento negro (SANTANA; 2007:164).
Podemos identificar, em distintos momentos, três pontos nodais de produção acadêmica sobre o negro: Estados Unidos a partir dos anos 60; Jamaica e Cuba e Brasil nas décadas de 1980 e 1990; e de modo apenas incipiente, por volta dos anos 2000, alguns outros países como Argentina, Colômbia e Suriname. Este panorama assinala ao menos três linhas de discussão. A primeira relativa à consolidação desta área de estudos no contexto dos debates nacionais. A segunda, e em relação com a primeira, com as maneiras como os arqueólogos têm debatido o registro material da população negra nas Américas. A terceira, sobre as relações de poder que subjazem enquanto produção acadêmica como linguagem de poder, pois essa produção é feita, em sua maioria, por acadêmicos não afrodescendentes (OLIVEROS, COELHO, 2016).
Os nativos da América e Oceania, paradoxalmente, precisam ser lembrados pela Etnoarqueologia. A ocupação do espaço por populações humana contemporânea se sobrepõe às ocupações anteriores os vestígios do passado se atualizam e ganham sentido por alimentarem simbolicamente a vida atual da população indígena (BARÃO; 2007:13).
Embora a Arqueologia de áreas fora de Europa seja quase sempre uma Arqueologia sobre os indígenas, no sentido etimológico da palavra, é comum se esquecer disso. Constrói-se um hiato entre os povos atuais e seus antepassados. É como se, por exemplo, os maias, quechuas e mexicas atuais não tivessem nada a ver com os maias, incas e astecas que construíram seus impérios antes da chegada dos espanhóis.
Quando os europeus começaram a estabelecer-se a oeste dos montes Apalaches descobriram montículos e aterros ao longo da bacia do Ohio e do Mississipi. Esses aterros que encerravam elaborados artefatos feitos de cerâmica, conchas, mica e cobre nativo desmentiam que as culturas nativas norte americanas eram invariavelmente primitivas. A atitude dos arqueólogos brancos foi imediatamente negar que aqueles montículos tinham sido construídos pelos povos que ainda habitavam a região quando da chegada dos ingleses.
Depois de 1860 foram feitos estudos de seriação e análise estratigráfica em concheiros e, com base nas evidências de mudança de estilos ou de padrões adaptativos na cerâmica, foram constituídas cronologias culturais locais (TRIGGER; 2004:101-118). Mesmo constatada a contemporaneidade das construções com as tribos indígenas ainda sobreviventes, preferiu-se atribuir as construções a algum povo que tivesse sido extinto pelos índios.
Esse é um fenômeno presente no Brasil, quando se procura negar qualquer relação entre os indígenas e os restos arqueológicos achados em determinada região. Como a Constituição Brasileira garante aos indígenas a posse das áreas tradicionalmente ocupadas por seu povo, o reconhecimento da ligação entre as etnias sobreviventes e a cultura arqueológica ganha uma relevência muito além da mera curiosidade científica. É impossível, por isso, promover um estudo de Etnoarqueologia entre uma população indígena que não considere o seu olhar sobre a situação (MORAES; 2007:24).
A interpretação dos dados arqueológicos reflete o interesse por uma identidade ou como confirmação de uma legitimidade étnica ou como patrimônio cultural mesmo herdado de povos invadidos, como no caso australiano. Em 1972, o governo australiano promulgou leis  conferindo aos aborígenes participação nos conselhos deliberativos que tratam da Arqueologia e proteção de sítios arqueológicos. O desejo de usar os achados arqueólogicos para fins políticos leva os aborígenes a entrar em conflito com arqueólogos brancos, e há uma discussão se a Pré-História australiana é um patrimônio nacional ou apenas dos aborígenes. Alguns ativistas consideram o interesse dos brancos no passado aborígene como uma apropriação cultural (TRIGGER; 2004: 140-141).
Em nações emergentes de independência recente, principalmente na África, eruditos voltam-se para a Arqueologia em busca de conhecer seu desenvolvimento pré-colonial, e tratam a Arqueologia como um instrumento de política nacional. A descoberta de ruinas de antigas civilizações africanas têm um grande impacto na auto-estima dos povos locais e, indiretamente, sobre o amor-próprio de toda a diáspora africana.

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