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Significante e significado

Prof. Dr. Roberto da Silva Ribeiro

Os objetos têm dois sentidos contextuais distintos, portanto eles devem ser apreendidos enquanto objetos físicos per si e enquanto conteúdos estruturados na prática histórica dentro de uma relação entre teoria e dados. Portanto há dois níveis de interpretação possível, o primeiro é a interrelação entre os elementos, como eles se estruturam e o segundo nível é o significado desses elementos para as sociedades que os produziram. A semântica representa a porção cultural específica na qual a construção simbólica se dá através da interação dialética entre o material e o imaterial, como os registros gráficos e as ideias.
As manifestações gráficas são testemunho das crenças e escolhas sociais de um grupo e dos processos cognitivos dos responsáveis por essa forma de comportamento simbólico. As diversas escolas da teoria estruturalista propõem uma leitura dos símbolos buscando compreender as ligações e as disposições internas estabelecidas entre as diversas unidades gravadas e pintadas e o suporte, tendo como objetivo a análise dos grafismos através das relações entre eles e entre os painéis e o suporte.
Para a Semiótica de Peirce, a mais divulgada entre os teóricos da Arqueologia, um signo é composto de três elementos: o significante, o significado e o referente. Quando alguém vê uma placa de “lombada”, primeiro observa o desenho em si: um símbolo arbitrário preto sobre uma placa de metal amarela este é o “significante”. Em seguida, a palavra “lombada” vem à sua mente, a abstração de todas as lombadas que a pessoa já viu na vida, esse é o “significado”. Em terceiro lugar ela vê a lombada em si, a lombada real, o “referente”.
A arte rupestre, por exemplo, proporciona um vislumbre sobre o nosso aparato cognitivo, ou sobre a estrutura básica do pensamento humano. Se a pessoa vê uma capivara pintada num rochedo, primeiro observa o desenho em si, ou seja, apenas tinta espalhada numa superfície. Em seguida “vê” na sua imaginação o significado “capivara”, a ideia geral de capivara, o “significado”; mas, naturalmente, não vê a capivara real que morreu há séculos. Então o “referente” se perdeu. Frequentemente não houve um referente real e o pintor não quis representar nenhuma capivara específica, apenas referenciar a ideia de “capivara” no geral.
Pode ser que, em vez de um desenho reconhecível, se apresentem apenas “riscos” que não formam nenhum desenho conhecido. Não se pode saber o que o autor desses riscos quis significar. Têm-se apenas o significante. Porém, pode-se analisar o significante. Por exemplo, se aparecem sempre três traços e depois dois triângulos, será possível estabelecer uma regra, dizendo que, em tal contexto, “três traços sempre vêm antes de dois triângulos e nunca antes de um círculo”.
Se uma pessoa não conhece as regras do jogo de xadrez, verá apenas “bonequinhos” sobre um quadriculado. Examinando mais detalhadamente, verá que alguns desses “bonequinhos” são mais altos que os outros, uns lembram um cavalo, outros a torre de um castelo. Perceberá que uns aparecem numa cor, e outros em outra cor, em cada cor, aparecem em grupos de oito, outros em pares, outros, por sua vez, são individuais. Terá, enfim, alguma compreensão do jogo, mas estará muito longe de saber suas regras e muito menos que há um campeonato mundial de xadrez e jamais conseguirá saber quem foram seus campeões mundiais.
Voltando à capivara, é possível descrever a figura em seus elementos, se ela é preenchida ou apenas contornada, se aparece só ou com outros animais, se é o maior animal do grupo, se é desenhada junto com humanos, se é desenhada comendo ou correndo. Isto é, mesmo que se tenha apenas o significante, ainda é possível fazer alguma interpretação. Jamais saberemos porém, se houve um campeonato de caça à capivara, ou se a pintura se refere a uma divindade em forma de capivara, ou algo assim.
O suporte deve ser considerado como parte da construção da mensagem. Na nossa sociedade, ninguém escreve uma carta formal em papel madeira, as mensagens que estão impressas num pacote de plástico são diferentes das que estão nas placas de trânsito. Não se escreve uma bula numa parede e nos fundos dos pratos deve vir o nome do fabricante. Pinturas em tela podem ser valiosas, mas pinturas em panos de prato, não.
Ao se avaliar um registro rupestre, o suporte rochoso é indissociável do registro gráfico, ele se torna uma categoria semântica. Para a semântica de um sítio rupestre, seu significado está ligado a um contexto específico. O arranjo de um dispositivo rupestre marca de maneira material significados, crenças e escolhas culturais. Uma cruz pintada no teto de uma gruta pode ter um significado diferente de uma cruz pintada na parede da mesma gruta. Na nossa cultura, uma caveira com ossos cruzados em uma bandeira significa “pirataria”, em um frasco, “veneno”. O suporte (bandeira ou frasco) muda a significação. Os esquemas iconográficos adquirem significados específicos, em função do seu uso através da consolidação de certo tipo de saber.
A escola funcionalista, que não deixa de ser uma vertente do estruturalismo, trata os artefatos como um conjunto de traços(TRIGGER; 2004:262). Tais traços seriam as propriedades mínimas referentes aos processos envolvidos na produção do sentido. Um objeto seria então o equivalente a um conjunto de feixes de traços distintivos. Por exemplo, podemos descrever um copo como um objeto para beber. Uma xícara também é um objeto para se beber, porém ela tem uma asa. Assim, a asa da xícara é o traço distintivo entre esta e o copo. Uma caneca se distingue de uma xícara porque, se ambas têm asa e servem para beber, a caneca é maior. O traço distintivo aí será o volume.
Os traços materialmente inscritos nos artefatos orientam leituras que permitem inferências diretas e imediatas sobre muitos fenômenos. A matéria prima, seu processamento e técnicas de fabricação e a morfologia do artefato, os sinais de uso, os indícios de diversas durações selam, no objeto, informações materialmente observáveis sobre a natureza e características dos materiais, a especificidade do conhecimento processual envolvido e da divisão técnica do trabalho e suas condições operacionais essenciais, os aspectos funcionais e semânticos, base empírica que justifica a inferência de dados essenciais sobre a economia social e simbólica da existência social e histórica do objeto.
Junto aos estudos sobre a materialidade do signo, podem-se interpretar as relações entre os sujeitos e os objetos de uma perspectiva semiótica que assinala o papel da cultura material na produção e reprodução dos sistemas sociais. Todo objeto é carregado de sentido. Uma roupa, por exemplo, pode dizer se o seu dono é rico ou pobre, homem ou mulher, civil ou militar. Em uma cultura igualitária, as roupas serão bem parecidas, em uma cultura muito hierarquizada, apresentarão um grande número de formas.
Um prato de louça, por exemplo, aparecerá em determinados contextos, numa sala de jantar, numa cozinha, mas nunca aparecerá em um banheiro. Um prato aparecerá associado a talheres e panelas, jamais a ferramentas de ferreiro. Os semioticistas chamam a isso “primeira articulação”. Porém um prato pode ser símbolo de status social, algumas baixelas só se usam para demonstrar a riqueza de seus donos em jantares especiais, este significado socialmente atribuído é chamado de “segunda articulação”.
Ao encontrarmos um objeto associado a certos contextos, entenderemos o seu significado. Um jarro que só é encontrado em sepultamentos terá tido um significado fúnebre, porém se este jarro é encontrado em vários contextos, inclusive nos túmulos, pode indicar a crença na continuidade da vida depois da morte.
Se os restos materiais podem, através de seu simbolismo, usar-se com fins opostos dentro de um grupo social, será impossível conhecer seu significado e essa disposição social e, a menos que examinemos todos os demais aspectos do registro arqueológico, precisamos conhecer todos os componentes de cada cultura arqueológica, todo o contexto, para poder perceber o significado de cada uma das partes. Os enterramentos podem carecer de signos de diferenciação, representando uma vida social sem desigualdades intergrupais, quando a análise do assentamento revela o contrário, do que deve deduzir-se um intento de mascarar a ideologia e como esta usou os enterramentos de forma simbólica. Com tal perspectiva, nega validez a todos aqueles trabalhos em que se analisam aspectos particulares da cultura, parcelas de seu todo, isto inclui os resultados das chamadas Arqueologias de Alcance Médio, desenvolvidas pela Nova Arqueologia, na qual só se consideram algumas variáveis. A Arqueologia contextual reclama a importância do indivíduo na elaboração da História, ao defender que a interação da cultura material e a sociedade é particular para cada grupo humano. Só poderá "compreender-se" a cultura adotando seu ponto de vista interno, assim não há explicação em Arqueologia, apenas interpretação. A partir disso, trasladam o razoamento ao presente e ao arqueólogo, dando sinais de este não poderem escapar ao presente em sua visão do passado. Em consequência, os dados arqueológicos são interpretações dadas, baseadas em noções atuais as quais influem na teoria a ser provada, asim não há possibilidades de verificação científica. Não haveria bases objetivas para dizer que qualquer teoria que seja coerente, esteja bem argumentada, mas se ajuste aos dados, seja melhor que qualquer outra que esteja bem argumentada, mas baseada em assunções distintas. Sendo todas as teorias e explicações produtos culturais e não havendo verdade objetiva contra a que prová-las, os preceitos e procedimentos da ciência seriam inapropriados para a Arqueologia (GONZALO; 2017:17).

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