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ANTROPOLOGIA ESPECULATIVA
Podemos chamar de “Antropologia especulativa” aqueles exercícios de reconstrução hipotética do passado a partir de mera especulação filosófica. Isso era bastante comum até meados do século XX. Autores como Engels e Freud propuseram uma visão de como teria sido a pré-história humana baseado meramente em suposições e extrapolações.
Engels acreditava que os homens evoluiram ao usar ferramentas, viviam em núcleos familiares em que o pai impunha sua autoridade pela força bruta à mulher e aos filhos. Ao descobrir que tinha participação na fecundação, o macho teria imposto a castidade à fêmea para garantir que seus bens pessoais seriam herdados apenas por seus decendentes biológicos. Assim, para ele, o egoísmo era a grande força que movia a humanidade.
Marx, por sua vez, diferentemente de seu companheiro, cogitava que o homem tinha surgido em uma sociedade igualitária, que ele chamava “socialismo primitivo”, em que os bens eram partilhados por todos e havia grande liberdade, inclusive sexual. Foi o advento da agricultura, para Marx, que deu origem às divisões sociais, pois o trabalho no campo exige muito mais empenho individual que a caça e a coleta. Com a guerra por terras, surgiu a escravização dos inimigos e a noção de classe.
Para Freud, a pré-história teria sido uma “infância” traumática para a humanidade. Para ele, os primeiros homens se organizavam em grupos como os dos chimpanzés, com um macho alfa tendo direito a posse sexual de todas as fêmeas. Os outros machos ou aceitariam a exclusividade do macho alfa sobre as fêmeas ou seriam expulsos do grupo. Os filhos de um grupo, certa vez, teriam se reunido para enfrentar juntos o pai, o mataram e o comeram e a partir daí dividiram as fêmeas. No entanto, o poder do grupo não pode ser dividido e passou a ser exercido pela mãe de todos, o que deu origem ao matriarcado.
Claude Levi-Strauss, por sua vez, imagina uma etapa primitiva da humanidade em que os irmãos tinham a posse sexual de suas irmãs. Quando um deles, por algum motivo, resolveu trocar sua irmã pela irmã de um amigo, então começou verdadeiramente a cultura humana.
Nikolai Marr, um linguísta russo do século XX, acreditou que no início os homens viviam em um quatro pequenos grupos e eram mudos. Os quatro feiticeiros desses grupos inventaram uma maneira de se comunicar rudemente por grunidos e combinaram de reunir os grupos em um festival uma vez por ano, daí surgiu tanto a linguagem quanto a religião.
Muitos outros pensadores construiram hipóteses semelhantes sem muita base (para dizer o mínimo), como os nazistas da Sociedade Vril que propunham que os alemães eram descendentes de semideuses vindos de regiões polares, como autoras feministas que imaginaram um matriarcado radical em que homens fracos eram dominados por amazonas, ou autores negros que propuseram um “afrocentrismo” radical etc.
Muitas dessas “reconstruções” influenciaram de alguma forma a pesquisa arqueológica, embora não se baseiem nela. Até hoje o mito do “bom selvagem” impede que certos arqueólogos vejam indícios de violência doméstica ou de hierarquia social ao escavar uma antiga aldeia indígena, ou que procurem indícios de uma “africanidade” anacrônica ao analisar o Egito antigo. Recentemente, por exemplo, uma múmia foi encontrada com indícios de câncer e houve protestos de leigos que afirmavam que o câncer é uma doença moderna causada pela poluição e que sua existência na antiguidade seria uma mentira promovida por indústrias de alimentos.

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